Terceira Casa?

No mapa astral, a Terceira Casa é o setor das comunicações e expressões,
textos, falas e pensamentos. Sobre o quê? Sobre si mesmo, sobre o mundo ao
redor, sobre tudo. É isso aqui.







sexta-feira, 23 de julho de 2010

Contos astrais: O leão


Sentiu outra vez a repentina pontada no coração, uma dor mais aguda do que a de ontem. Reclinou a poltrona e afrouxou a gravata, tentando respirar fundo e devagar. Percebeu que estava pálido pelo susto da secretária, quando esta entrou na sala para anunciar o começo da reunião. Ele disse que estava bem, que já ia, que não precisava de nada, que apenas o deixasse quieto só um instante. Mas ficou muito preocupado. Lembrou logo do pai e do tio – família de corações fracos. Não devia facilitar com isso: antes de sair, tomou coragem e ligou no telefone celular para um grande amigo, médico cardiologista. O outro exigiu vê-lo com urgência no horário de almoço, única brecha na agenda de ambos. Com o súbito ânimo de quem se percebe protegido, seguiu para a reunião, que não podia prescindir do devotado presidente da empresa.
Passava do meio-dia quando ele saiu do prédio. O sol a pino lhe ofuscou a vista. Esquecera os óculos escuros em cima da mesa! O relógio avisou que não daria tempo de almoçar em casa e chegar para a consulta. Pensando bem, era até conveniente não encontrar a mulher. Não queria se aborrecer de novo com a mesma questão. Telefonou com uma desculpa: almoço inesperado, executivos do Japão. Sem fome, mal entrou no carro para ir ao consultório do amigo, ouviu o celular tocar. Ele. Ia se atrasar um pouco, coisa de meia hora. O que fazer, então?, foi pensando, enquanto dirigia. Decidiu: caminharia um pouco sob as árvores da alameda onde ficava a clínica. Seria bom. Logo estacionou defronte e saiu a bater pernas, vendo o sol varar as folhas parcas do inverno, a luz mortiça irradiando uma vibração perigosa. Perigosa porque era impossível não pensar na causa de sua dor. O filho. Sua única cria. Justo ele! Seu ouro, seu tesouro, sua aposta, sua vida. Uma punhalada! Foi o que sentira no coração...
A alameda da memória fez ressurgir o menino louro, de sorriso irresistível em maçãs salientes e olhos amendoados. Um pequeno deus! Ele, o pai, tinha sido o chão sobre o qual brincara cheio de vontades esse ser iluminado. Presente dos céus: o filho mais lindo, mais magnético, de carisma absoluto. E, bênção suprema, o moleque adorava ir ao escritório! Amava olhar a cidade pela vidraça do quinto andar! Querido do pai, mimo de todos, corria livre por todo canto, até na sisuda sala de reuniões. Gostava de saber que aquilo tudo seria seu, ou melhor, já era seu. E o pai deixava de lado as resoluções importantes para ouvir o chamado insistente do filho a apontar da vidraça as miudezas da rua lá embaixo. Um presente de Deus! Por esse filho fez tudo. Concedeu todos os luxos, atendeu a todos os desejos. E por causa desse filho agora podia morrer! Oh dor! Se a vida humana é drama, nada além de tragédia, então ele agora sentia no peito a piada dos deuses. Seu tesouro era ouro de tolo!
Entregue aos pensamentos, nem notou que já caminhara por várias quadras. Estava bem em frente ao jardim zoológico. Ainda tinha tempo, por isso tomou o caminho de entre as jaulas dos bichos, embora soubesse que isso fatalmente o faria lembrar ainda mais do filho. Por que, meu menino? Por que você foi fazer isso comigo? Você cresceu dizendo que queria ser igual a mim. E eu fechava os olhos para seu cabelo louro comprido, suas tatuagens, sua guitarra barulhenta, seus deslizes. Você quis estudar para melhor administrar nosso negócio, e eu me senti nas nuvens. Aí, meu menino, agora você me diz que já tem 20 anos, que é dono do seu nariz, que minha vida é um lixo e que não quer viver na minha sombra. Como, meu filho, se eu é que gravitei em volta da sua luz? Você me avisa que abandonou a faculdade, que vai estudar teatro na Inglaterra... E me revela, assim, sem mais nem menos, na mesa do café, que ama outro homem e que vai embora com ele... E que sua mãe sempre soube disso e que o apóia... Você me traiu, meu filho!
Seguiu andando, alheio aos gritos dos macacos, no zoológico quase deserto daquela primeira hora da tarde. Quando deu por si, estava diante da jaula do leão. Dupla proteção, de arames e grades, encarcerava o tal rei das selvas. Na placa, o aviso de perigo e o nome científico: Panthera leo. O leão dormia, solitário, com o corpo estirado na magra nesga de sol que invadia a cela. A juba dourada, embora maltratada, ensaiava um ligeiro brilho nos raios de luz. Quanta crueldade!, pensou. Esse animal não nasceu para tamanha humilhação! E a juba... essa juba... qual uma loura cabeleira... De súbito, o choro lhe brotou da cara aos borbotões, sem óculos de sol para esconder. Deus, como se podia permitir uma violência dessas? Por que reduzir um bicho tão vistoso, de natureza livre, a um quadro tão deprimente?
Aquele leão... E ele caiu em si. Como podia prender o filho a uma vida que não era a que o rapaz queria mais? Que direito era esse, que ele chamava de legítimo amor? Estava aos soluços, quando o telefone tocou. O doutor chegara. Era hora de começar a se cuidar. Precisava viver muito ainda. Tinha um filho único a amparar. Um filho que o estava ensinando que amar também é dar ao outro a liberdade de ser sempre fiel ao próprio coração.

2 comentários:

  1. Bah, adorei o texto! Muito, muito bom! Nem sei mais o que dizer... Precisamos todos 'cair na real', por uma razão ou outra, e isso acontece na hora certa, inespereadamente...

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  2. Caraca! Talvez o pai tenha sofrido a toa, sofrido por não entender que o filho mudou, que o filho cresceu e, hoje, tem outras preferências.
    A gente sofre por querer que as pessoas sejam exatamente como nós desejamos que elas sejam, e elas não podem se anular em função do que a gente quer. Cada um tem a sua vida e seus sonhos; o que cada um pode fazer é compartilhar dos sonhos alheios; sorrir com as alegrias, vibrar com as vitórias daquelas que amamos. Deixar que elas trilhem os caminhos que acham que devem seguir.

    Adorei esse post!

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