Terceira Casa?

No mapa astral, a Terceira Casa é o setor das comunicações e expressões,
textos, falas e pensamentos. Sobre o quê? Sobre si mesmo, sobre o mundo ao
redor, sobre tudo. É isso aqui.







terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Gramática de dezembro


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 07/12/2007

Substantivos: compra, débito, pagamento, crédito, oferta, caixa, presente, fita, fila, pacote, atendente, algodão, isopor, vitrine, trânsito, gente, gente, gente, irritação, buzina, calor, camiseta, bermuda, amigo-oculto, reserva, pizzaria, espera, confraternização, cerveja, alegria, mensagem, vazio, cartão, euforia, depressão, feriadão, festa, quantidade, falta, pinheiro, luz, coração, barriga, mesa, ceia, peru, fruta, vela, família, amor, solidão, lembrança, inventário, promessa, esperança, negação, expectativa, noite, espumante, taça, abraço, beijo, ressaca, perdão, Deus, fim, começo.

Verbos: querer, andar, olhar, perguntar, cansar, comprar, gastar, calcular, telefonar, desistir, somar, oferecer, retribuir, arrumar, cozinhar, preparar, esperar, sentir, chorar, rir, perdoar, embriagar, ferir, esquecer, celebrar, rezar, desejar, sonhar, brindar, dividir, prometer, parar, seguir, ser, ter, dormir, recomeçar.

Numerais: doze, décimo terceiro, vinte, meio, vinte e cinco, dobro, milhares, milhões, bilhões, trinta e um, dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um.

Pronomes: eu, comigo, tu, contigo, nós, conosco, eles, deles, isto, meu, pouco, aquilo, bastante, vários, demais, alguém, quem, ninguém, quanto, qual, aquele, nenhum, minha, nada.

Artigos: o, um, a, uma, os, uns, as, umas.

Adjetivos: feliz, novo, bom, melhor, vermelho, verde, triangular, celeste, colorido, caro, bonito, barato, singelo, iluminado, lindo, dourado, ótimo, verde, cristão, alegre, mau, cheio, péssimo, delicioso, doce, salgado, quente, melhor, gelado.

Advérbios: aqui, bem, lá, mal, talvez, menos, possivelmente, sim, hoje, muito, amanhã, demais, sempre, rapidamente, nunca, lentamente, como?, onde?, ainda, não, adiante, depressa, longe, devagar, perto, generosamente, bastante, certamente, quando?, quando?, quando?

Preposições: até, sem, após, exceto, durante, com, mediante, sob, contra, sobre, conforme.

Conjunções: que, porque, mas, quando, pois, ou, porém, nem, contudo, portanto, assim.

Interjeições: xô!, alô!, olá!, hum!, oba!, grato!, viva!, tomara!, queira Deus!, ufa!.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Céu de Sagitário


Nivaldo Pereira

Texto publicado no jornal Pioneiro, 04/12/2009

Em Sagitário, a gente quer sentido. Quer saber das tais coisas entre céus e terra, saber de mistérios e vãs filosofias. Em Sagitário, a gente quer achar um lugar para Deus, se na sala, no quarto, no sótão iluminado ou no porão sombrio. Sob o céu deste Sagitário, eu vi dois espetáculos teatrais, dois monólogos de mulheres sobre textos de duas escritoras. Ambas sagitarianas: Adélia Prado e Clarice Lispector. Ambas falam de Deus. Coincidência? Sob um céu de Sagitário, não há coincidências.
Em Adélias, Marias, Franciscas..., a atriz e bailarina Maria Falkenbach viajou na obra da mineira Adélia Prado, divina Adélia de Divinópolis. O sotaque brejeiro definiu no palco uma mulher entre o cotidiano e a fé em Deus. Um Deus refletido no feijão diário e na roupa do varal, no desejo sensual e no sonho de amor. Um Deus que soma e subtrai. Adélia escreveu: “De vez em quando Deus me tira a poesia. / Olho pedra, vejo pedra mesmo.”
No Sagitário de Adélia, a flecha para Deus desenha no espaço o mapa do humano. Diante da goiaba madura, o mistério se revela: “o Reino é dentro de nós, / Deus nos habita. / Não há como escapar à fome da alegria!" E há tantas fomes nesse corpo, obra de Deus: “Meu coração bate desamparado / onde minhas pernas se juntam. / É tão bom existir!”
E sob Sagitário eu vi também Beth Goulart em Simplesmente eu, Clarice Lispector. Em cena, a figura estranha e fascinante de Clarice. A estranheza e o fascínio da vida, carecendo de significado. Que surge ameaçador, no clarão repentino de um cego mascando chicletes; ou que desafia a ordem anterior, ante um rato morto sob o sol. É Deus nas epifanias de toda hora.
Em Clarice, Deus é falta: ”Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele.” Ou a aceitação do escuro interior: “enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado e o jogo da minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.”
Adélia, Clarice, Deus. Sob esse céu sagitariano, atiro minhas próprias flechas ao Deus que me espelha. Dentro, o coração apenas bate. Mistério da vida.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Já volto!

Tadim do meu bloguim, tão abandonadim. Ando sem tempo para ele, escrevendo os textos para o livro Jeitos de Ser Brasil, um apanhado de impressões sobre o nosso país, resultado de viagens pelas cinco regiões com o artista plástico Antônio Giacomin. Em abril, o livro deve ser lançado pela Editora Belas Letras, com meus textos em tom de crônicas e as aquarelas e desenhos do Giacomin, mais a diagramação especial da Lofty Design. Está ficando bonito, aguardem. Enquanto escrevo, ando ouvindo muita coisa, de Elis Regina a Maria Callas, de Uakti a Sá & Guarabira. Nos últimos dias, o argentino León Gieco, de quem posto aqui um vídeo com a saudosa Mercedes Sosa, em Carito, umas das músicas do Gieco de que mais gosto. Hasta luego.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os vivos e os mortos


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 04/11/2011

Brisa fria, manhã de Finados. Uns dormem, na paz do feriado; outros, despertos, pensam nos que dormem em paz nos campos santos. O dia dos mortos é também dia dos mortos de saudades. O vento da primavera quer saber a inverno, como se plasmasse no ar a frieza de lápides e ausências. Quer, esse vento, retornar à estação passada, conter o verão de exuberâncias incabíveis quando lutos se arrastam no choro das perdas. Mas a vida empurra, a vida puxa pelos cabelos, a vida é feita de seguir em frente. E o vento cede, se deixa aquecer de calores suaves, feito lágrima que secasse e riso que se anunciasse. Oh, brisa fria, então não sabes que gelos não podem ser eternos?

O sol, potro fogoso, sobe no caminho azul do céu, firma-se em calor e vontade. A luz irradiante é mais que convite, é ordem para ações e direções. Frear tal ímpeto soa a negação da natureza. E o natural não é a negação da morte, mas a afirmação da vida pela morte. Há que se pensar bem na vida quando a morte é tão certa. Um dia para os mortos, todos os dias para os vivos. Quem não vive tem medo da morte: palavras do Itamar Assumpção, poeta morto. Morte dói, mas sem ela a vida fica sem limite, sem propósito, sem urgência. Por isso o sol decreta: levanta e anda! Respira e vive!

A noite, sem sol, espelha no firmamento luzeiros vivos e lembranças de estrelas. Sim: lembranças, pois que tantas delas nem mais existem, reduzidas à viagem da antiga luz pelo espaço. Meras memórias, mas tão reais! Ocultas pela proximidade urgente desse sol que arrebenta o dia, as estrelas em memória continuam a rodar, lá atrás, em seus lugares no desenho ancestral das constelações. Presentes e invisíveis, qual manto mágico a tudo envolver. Feito nossos mortos: brilhos de nossa memória, limites do que fomos e do que nos resta ser.

Eu abro a janela na manhã de Finados. A brisa fria dói em saudades dos meus mortos. Mas esses mortos, bem sei, me querem vivo e feliz. E nesse propósito eu sigo, montado no potro solar. Quem não vive tem medo da morte: sempre é bom ouvir o som do meu saudoso Itamar. Negra melodia, estrela, estrela.

A mulher e as pitangas

Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 28/10/2011

São três pitangueiras carregadinhas. As frutas, em amarelo e vermelho, poucas ainda verdes, se oferecem a quem as quiser. Na névoa rala que evanesce a paisagem do cedo matinal, uma mulher estica o braço, colhe as pitangas mais graúdas. Repete o ato na árvore seguinte, e na outra. Sai com a mão cheia. Tudo até natural, numa manhã de outubro, safra da fruta silvestre. A nota dissonante? O fato de as pitangueiras estarem numa calçada do centro de Caxias do Sul, subida da Rua Garibaldi, na quadra entre a Pinheiro e a Júlio.

A mulher, uma transeunte nos seus que-fazeres, põe na bolsa as pitangas, sobe a rua. Eu viro o pescoço, viro a esquina. O cruzamento de vias já é um ruído absoluto, de fúria e velocidade àquela hora. Começa uma terça-feira de urgências, numa cidade que não gosta de perder tempo. Meu olhar, já noutra direção, registra uma sintonia entre as cores das frutinhas – vermelho, amarelo, verde – e as cores do semáforo. Um anjo vagabundo, desses que vadiam nas esquinas, pisca para mim, como a dizer sem palavras: “Achou assunto para a crônica, hein?” Quis saber a que assunto ele se referia, mas, anjo vadio, evapora-se na névoa.

O dia passou, mas ficou a imagem da mulher que colheu pitangas, ficaram as cores do semáforo, ficou a pressa das ruas. Agora, na hora de processar isso tudo, um olhar em verde, de leituras aceleradas e imediatistas, enxerga na mulher das pitangas apenas a esperteza de quem achou frutas dando sopa, de graça, e juntou quantas conseguiu, qual troféu de sorte. Um olhar em amarelo já pede calma na avaliação. Então não havia ar de surpresa no gesto da mulher? A quem se destinaria as frutas colhidas? Talvez seja uma festa ela entregar a alguém o punhado de pitangas e a origem: colhidas bem ali, na calçada...

Por fim, surge um olhar em vermelho, sempre maduro. A mulher parou, interrompeu suas urgências para uma ação tão natural, até inocente. Parei eu, por instantes, para mirar essa cena rara. Vagares na manhã de uma cidade de pressas, cidade que nunca pára. Cidade que detesta sinais vermelhos.

Ei, anjo vadio, então era esse o tema?

domingo, 23 de outubro de 2011

O funk do Adnet

Olha aí o vídeo engraçadíssimo do Marcelo Adnet, Gaiola das Cabeçudas. Curtam.

Malícia Popular Brasileira


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 21/10/2011

Chorei de rir com o vídeo Gaiola das Cabeçudas, do humorista Marcelo Adnet, no youtube. Travestido de popozuda, Adnet manda ver um funk carioca, no ritmo e na coreografia, com o elemento inesperado que produz o humor: a letra cheia de referências “cabeças”, de Beethoven a Jung, de Foucault a Kant. Alta cultura onde se esperava pornografia: na há como não rir. Evoco esse vídeo para refletir sobre a queixa geral acerca do baixo nível da cultura de massa, em que o funk carioca, com seu erotismo explícito, é o demônio da vez. Tempos atrás, a música popular não era tão sacana. Ou era?

No delicioso livro História Sexual da MPB, o carioca Rodrigo Faour mostra que a tal baixaria não é marca dos tempos modernos, mas sim um traço cultural do brasileiro. Nosso povo se gaba de sua sensualidade tropical e de sua imensa libido. Também se reconhece na manha com que burla leis e não leva nada muito a sério. “A nossa música também reflete essa nossa ‘indisciplina’ em relação ao padrão moral de comportamento reinante em cada tempo de nossa história”, escreve Faour.

Ou seja, uma ala mais divertida e malandra da MPB, que brincava com os duplos sentidos às raias da pornografia, sempre conviveu com uma produção tida como séria e de bom gosto. Lógico que, em tempos de liberação sexual, como agora, as canções e danças vão ilustrar também esse estágio. Enfim, nada de novo sob o sol do Brasil, nem mesmo a grita dos mais recatados.

Faour prova sua tese citando canções antigas, e de sucesso, do começo do século XX, como A Boceta de Rapé (1907), A Pombinha da Lulu (1912) e Vai Entrando (1903), entre tantas. A malícia se espraia ainda mais com as marchinhas carnavalescas, vide trechos como “Esse ano eu sair de diabo / Só falta o rabo! Só falta o rabo!” e “É dos carecas que elas gostam mais”. A sem-vergonhice segue sempre, até Genival Lacerda ficar de olho na butique dela e inaugurar um gênero.

Não tem jeito. Barroco que sou, depois de ouvir uma ária de Bach, chego a precisar da voz da Clemilda mandando o delegado prender o Tadeu. Quem mandou nascer brasileiro e se orgulhar disso?

Sopa de letrinhas como aperitivo


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 14/10/2011

“Picasso pediu a Gertrude [Stein], em 1907, que posasse para ele. Gertrude aceitou. Passou 54 dias posando e, quando o retrato ficou pronto, Gertrude se queixou: ‘Pablo, esse retrato não se parece comigo’. Ele respondeu: ‘Não se preocupe. Um dia, você é que se parecerá com ele.’” O leitor apaixonado, de Ruy Castro, página 195.

“E Marilyn [Monroe] deixou de ser mulher. Era a folhinha. Nunca perdeu a obsessão da própria nudez. Quando pensou em se matar, teve que se despir para morrer. Morreu nua, morreu folhinha.” A cabra vadia, de Nelson Rodrigues, página 293.

“Depois de muito voar por muitas terras e reinos, avistou o pé de árvore na frente de um grande palácio; o Vento logo de longe foi dizendo: ‘É ali; agarre-se nos galhos, senão eu a levo para o fim do mundo.’ Assim a moça fez; agarrou-se num galho de árvore, e o Vento seguiu.” Contos populares do Brasil, de Sílvio Romero, página 7.

“Há uma outra maravilha [no país de Cocanha]: a Fonte da Juventude que rejuvenesce homens e mulheres. Qualquer homem, por mais velho e pálido que seja, qualquer mulher, por mais velha que pareça com seus cabelos brancos ou grisalhos, retornará à idade de trinta anos (é a suposta idade do começo da pregação de Cristo).” Heróis e maravilhas da Idade Média, de Jacques Le Goff, página 150.

“Meu pai era pedreiro. Por causa da neve não podia trabalhar. Sua argamassa congelava antes de aderir, e seus dedos eram como varetas desajeitadas. Mas era um homem de atividade incessante, tinha de fazer alguma coisa, e o lento arrastar dos dias o exasperava e fazia dele um homem perigoso dentro de casa.” O vinho da juventude, de John Fante, página 23.

“Seu remédio era o canto. Recostada na cabeceira da cama, debaixo do crucifixo, a mãe exorcizava a dor. E as canções de despedidas, de amores perdidos, de momentos partidos, preenchiam o silêncio. E mudos, com os pensamentos encharcados de perguntas, os filhos escutavam os gemidos em forma de música e aprendiam a cantar.” Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, página 50.

Querem mais? Sirvam-se da refeição completa nos livros!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Letras roubadas


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 07/10/2011

Na cama, enquanto repartia o tempo antes de dormir entre três livros, devorando um pouco de cada, constatei que sou um milionário no quesito direito à leitura. Cheguei a isso evocando um antigo dito da minha mãe: “Nasci nua e estou vestida”. Ela dizia assim quando precisava reafirmar que já era vitoriosa, mesmo que a vida seguisse exigindo coisas e coisas. Pois na lição da mãe, embora eu tenha tantos quereres, sou realizado porque posso ler os livros que anseio, se for lembrar um tempo em que ler era um desejo difícil de ser saciado.

Não havia livros em casa na minha fase mais ávida de leitura, a adolescência. Muitos irmãos, muitos gastos, não havia dinheiro para livros que não fossem os didáticos obrigatórios da escola. Era quando eu olhava com inveja as estantes cheias nas casas de colegas. Lia o que podia pedir emprestado, e só. Mas era pouco, muito pouco para minha fome de letras e mundos imaginados. Foi quando caí na clandestinidade. Passei a roubar leituras.

Com certa regularidade, ao voltar da escola, entrava na maior livraria do bairro, pegava na prateleira o livro desejado e desatava a lê-lo, ali mesmo, em pé. Cuidava de fechar o volume e devolvê-lo ao lugar quando algum funcionário se aproximava, num disfarce fajuto de quem estava a procurar algum livro para comprar. Li assim uns dois títulos da coleção de Monteiro Lobato, capítulos a prestação, um olho na página, outro na gente da loja.

A farra acabou quando certa tarde o dono da livraria me desmascarou. Disse, com tom autoritário: “Você está sempre por aqui, lendo tudo e não comprando nada. Se não for pra comprar, não apareça nunca mais.” Pedi desculpas, saí da loja humilhadíssimo.

Essa vergonha, contudo, não durou muito, pois o vício da leitura me levou a repetir o crime em outra livraria. Vício faz isso, faz a gente burlar a lei. Pena que a outra livrara fosse pobre em literatura...

Naquele tempo, meu maior sonho era poder ler tudo o que quisesse. Tantos anos depois, com estantes abarrotadas e criado-mudo com livros empilhados, agradeço aos céus pela graça alcançada. Sou ou não sou um cara rico?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O mistério das moedas


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 30/09/2011

Começo esta história pela conclusão que tirei dela: a gente nunca sabe direito quem é o outro, e esse mistério estimula a criação de explicações que não passam de extensões do nosso próprio mundo. Pareceu complicado? Vamos à história, então.

O prédio vizinho ao meu, com um poço de luz separando-os, termina dois andares abaixo das minhas janelas, mas há no terraço dele um anexo que se eleva por mais um andar. Talvez seja uma casa de máquinas, esse bloco logo abaixo do meu vizinho da direita.

Anos atrás, dia após dia, enquanto olhava a paisagem da tarde, eu notava o aparecimento de moedas na laje do bloco retangular. As moedas, de cinqüenta centavos e um real, faiscavam ao sol poente, e eu ficava intrigado sobre a origem delas. Alguma criança teria atirado-as ali? E por que continuava a atirá-las seguidamente? Um adulto? Quem seria esse vizinho? Seria por promessa? Oferenda aos entes das ruas?

Quase nunca aparece gente no terraço vizinho, e nunca vi ninguém subir ao anexo, de modo que as moedas foram aumentando e provavelmente despertando a curiosidade de outros moradores do meu prédio. Se o autor não fosse o louco literal que atira dinheiro fora, certamente seria um crente em simpatias e afins. Tipo: jogue uma moeda de um real no telhado vizinho, que sua conta bancária engorda!

Certa feita, uma amiga veio visitar-me e, vendo aquela grana brilhar na laje, deu-se ao trabalho de contá-la e concluiu que não ia demorar a haver alguma caça ao tesouro. Dito e feito. Um tempo depois, notei um zunzunzum lá fora e dei de cara com uma cena insólita. Do apartamento à direita do meu, desocupado e em reformas, dois pedreiros “pescavam” o dinheiro. Aliás, vou retirar as aspas, pois eles pescavam mesmo as moedas, com uma extensa vara de pescar e um ímã na ponta. Tique, tique, tique, tique: as moedas foram se grudando ao ímã. Todas.

Os dois viram que eu os observava e riam, quem sabe com a sensação de “fomos mais espertos que você”. Aí a laje voltou a ser mero teto. O atirador de moedas sumiu ou parou com isso. E eu fiquei com mais um mistério sobre a vida em sociedade.

domingo, 25 de setembro de 2011

Porque hoje é primavera


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 23/09/2011

Extra, extra!: a Terra, nave da nossa viagem pelo céu, logo na manhãzinha desta sexta-feira, 23 de setembro de 2011, às 6h05min, chegou ao ponto em que permite ao Sol irradiar com igual intensidade sua luz para o globo inteiro. Como ficar imune a esse decreto cósmico de partilha e justiça?

O inverno no Sul se despede. O calor vai chegando manso, fecundo, despertando toda a natureza da fase de recolhimento. A passarada reaparece em cantorias incessantes, machos e fêmeas vibram alegremente no cortejo de acasalamento. Trinados melodiosos são relógios da vida. Como ficar surdo a esse encantado despertador?

As árvores que se desfolharam no frio respondem ao clima de ressurreição numa brotação de verdes espetaculares. Galhos e troncos vestem-se dos tons que a poesia dos homens costumou associar à esperança. Ainda que meio cegos pelo cinza das cidades, como não deixar que a imaginação busque motivos para surpresas libertadoras?

Do mais humilde arbusto à imponente araucária, do musgo da grota ao capim que faz cocurutos nas ondulações dos morros, dos cravos silvestres às roseiras de estufas, de tudo exala odores inebriantes, aromas de desejos de viver, perfumes do existir. Como não abrir o peito e aumentar a inspiração com esse ar regenerador?

A luminosidade, num crescente, irradia o calor que inutiliza carapaças e casulos; casacos e capas voltam para o recôndito dos armários; a pele quer se sentir nova no arrepio de brisas e quenturas, o corpo todo se estica, como se clamando por também ser tocado, qual instrumento, pela regência solar. Como não espichar também o raio de todos os nossos alcances?

Por entre beijos de abelhas no néctar, bicadas sugadoras de colibris, ciscar de aves em chão de insetos, ansiar de bichos fora das tocas, tudo parece querer comida, querer cor e frescor. Como não saciar essas e outras fomes do bicho humano?

E a primavera neste ano se inicia junto com a luz do dia, em clima potente de nascer do Sol. Como negar esse duplo impulso de recomeço, se a vida toda é um só empurrão para fora, para além, para adiante?

Ei, vocês vão ficar aí, parados?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Até o próximo parto


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 16/11/2011

No jornal Pioneiro, já escrevi quase 600 crônicas, em mais de 11 anos. É texto a dar com pau. Esse inventário, à guisa de making-of, primeiramente atende a um velho gosto meu pela metalinguagem. Volta e meia, estou a falar da crônica na própria crônica, de sua estrutura e intenções, de sua composição. É cíclica essa motivação, sem que eu a planeje. Isso porque aprecio a forma do texto, a mancha gráfica das letras impressas no papel, e também gosto das entrelinhas, dos bastidores das idéias.

Mas, se outra vez disponho-me a falar do ato de escrever a crônica, e se já começo fazendo as contas da produção acumulada, não será para me sentir um veterano no oficio – embora uns me vejam nessa condição. Pelo contrário, será para reiterar a angústia que me toma antes da escrita. Sempre.

Já me disseram que meu texto flui, como se fruto de um jorro espontâneo da mente, ao sabor dos dedos ágeis no teclado. Não pode haver impressão mais errada. Escrever, para mim, é sempre um sofrimento. E dedos ágeis? Eu cato milho até hoje...

Tem cabimento um marmanjo com quase 600 crônicas nas costas ainda querer fugir antes de começar uma nova? Pois é o que acontece comigo. Por força de duas senhoras gordas e espaçosas que moram dentro de minha neurótica cabeça: Dona Autocrítica e Dona Expectativa. Não sou daqueles caras que chegam em casa tomados de inspiração e correm ao computador para escrever. Se a inspiração vem, eu espero ela passar!

Tampouco uso meu tempo livre para escrever o que for. Escrevo por obrigação. Sem a pressão do prazo, não sai uma linha desses dedos. Tenho coisas melhores a fazer do que sofrer diante de um teclado. É por isso que me causa desconforto ser chamado de escritor. Ah, tá, escritor! Fala sério...

Agora, amigo leitor, já lhe ouço perguntar por que diabos insisto nesse ofício. É porque, vencido o início paralisante, tendo calado as matracas das duas gordas, é puro tesão terminar um texto. A sensação é de recompensa. É como dar à luz um ser. Aliás, acho que entendo as mulheres quando alardeiam a insuportável dor do parto, mas não se negam à próxima gestação.

Um beijo do amor


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 09/11/2011

Eu jantava num restaurante com um amigo, quando senti o toque macio em meu ombro. Antes que me virasse, recebi um beijo na face e ouvi uma voz infantil dizer “tchau”. Era uma menina loirinha, de uns cinco anos, com os traços da Síndrome de Down. Ela foi ao outro lado e repetiu a ação com meu amigo: um beijo, tchau. Fez o mesmo com mais umas três pessoas de outras mesas, enquanto a família a esperava, a caminho da saída. Dissemos tchau, acenamos, todos tocados e desconcertados com aquela súbita demonstração de um carinho tão inocente quanto incondicional.

Não houve tempo de perguntar-lhe o nome, a idade, comentar qualquer coisa. Apenas trocamos olhares cúmplices com a família da menina, um tanto de embaraço nosso, muito de simpatia deles, na mútua compreensão de quem sabe que o amor às vezes aparece assim, puro, generoso, incondicional.

Não havia na atitude deles o mínimo sinal de um talvez pedido de desculpas pelo provável incômodo. Nenhum meneio de cabeça reprovador a indicar obediência às convenções sociais que pressupõem limites definidos entre nosso espaço e o do outro. Aquela família já tinha sido tocada e transformada pelo amor irradiante da menina. Já era, também, toda amor. E foi com olhos afetivos e sorrisos que aquelas pessoas pareceram nos dizer: nosso anjo bom escolheu vocês para um beijo, uma bênção.

Eu e meu amigo não comentamos a chegada inesperada da garotinha. Seguimos o papo interrompido, mas impossível negar que algo de especial tinha acontecido. Pouco antes, tínhamos feito voltar a pizza, que viera além do ponto. Há que se estar atento aos próprios direitos. Há que se estar na defensiva. Sempre de armas em riste, couraças, armaduras. Aí, um beijo anônimo vem e nos desarma.

A nova pizza chegou, no ponto exigido, comemos em silêncio. E ficamos meio aéreos, dispersos, olhando as caras, as mesas cheias das ânsias da noite de sábado. Era até cedo, mas logo decidimos ir para nossas casas.

Eu só queria dormir, me entregar no colo da vida. Só queria sonhar na graça de um amor que, feito chuva repentina, inunda-nos de bondade e esperança no futuro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Minha doce flauta doce


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 02/09/2011

Tentava me concentrar num livro. Era cedo para entregar-me ao sono, sob o risco de acordar pouco depois e não dormir mais. Foi quando um som da vizinhança me ligou inteiro. Flauta doce. Algum iniciante praticava o instrumento, entoando obras já clássicas para esse aprendizado, como Noite Feliz e Asa Branca. As canções soavam mais lentas, com direito a derrapadas nas notas, típico de quem ainda não tem a destreza dos dedos nos furos da flauta. O que me despertou não foi bem a cadência musical: foi a memória.

Vi-me outra vez com 16 anos, quando cismei de tocar flauta doce. Havia no ar ecos tardios da geração hippie – e eu trazia na lembrança uma cena de anos antes: praia isolada de Salvador, um cabeludo sob um coqueiro, uma mochila surrada de lado, ele tocando uma flauta, um riacho límpido correndo para o mar. A flauta do hippie parecia ser uma varinha mágica, batuta de maestro que orquestrasse os demais elementos naquele quadro de paz e amor.

Aos 16, nas tensões de perda da inocência e na ânsia de viver música, talvez fosse natural esse remoto apelo da flauta mágica. Pois era de paz e amor a visão de uma colega recostada numa árvore, na hora do recreio, entoando com desenvoltura Jesus, Alegria dos Homens. Fissurei no ato. Onde você comprou? Quanto custou? Como aprendeu? Deixei de merendar por um mês, andei a pé, até juntar o dinheiro para minha flauta. Marca Heringer, amarelinha. A colega emprestou-me o primeiro volume do livro Minha Doce Flauta Doce. E minha vida mudou.

Em casa, não queria saber de mais nada que não fosse praticar a flauta. Era o máximo identificar as notas na partitura, os acordes, até os chatos bemóis e sustenidos. E infernizava o povo com meus treinos. Logo veio o segundo volume do livro. E eu já me exibia tocando Imagine, sem partitura. Um luxo.

Já nem sei em que momento a minha doce flauta doce foi morar de vez num fundo de gaveta. Perdeu-se, como tanta coisa bonita na vida. Agora, tantos anos depois, um som de flauta da vizinhança me tirou o sono. Oh, sentimentos difusos! Nessas horas, como seria bom poder tocar um instrumento...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Melancolia


Nivaldo Pereira

Crônica publicada no Pioneiro, 26/08/2011

Melancolia, do dinamarquês Lars von Trier, é um filme sobre o qual a gente quer conversar, até precisa conversar, porque ele insiste em continuar passando em nossa tela mental mesmo com o fim da sessão de cinema. Esse é o efeito de uma verdadeira obra de arte: tocar fundo o humano por abordar temas essenciais da vida. E seria a melancolia um tema assim, de tanto peso? Basta dizer que ela pode ser associada a uma falta de sentido no viver para percebermos sua relevância – ou seu perigo.

Sou fã de carteirinha do Lars, cada filme seu é um abalo, e eu gosto demais de experiências viscerais. Vivo desse modo uma catarse à grega, fruindo no cinema o que seria insuportável como realidade. É a magia da sétima arte. E em Melancolia, o que vamos experimentar é o real e atual medo do fim do mundo, reforçado por funestos mitos apocalípticos ou pela constatação pontual da fúria da natureza. Sim, vamos acabar, só não sabemos quando nem como. Que atitude nos cabe diante disso?

É genial a idéia do diretor de encarnar nosso provável fim como um planeta chamado Melancolia, que entra no sistema solar e ameaça chocar-se com a Terra. Nas mãos de Lars von Trier, que nunca pisou em Hollywood, isso é menos ficção científica e mais uma metáfora de cunho filosófico e psicológico. O dicionário define melancolia como “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”. Para além de temores catastróficos, não seria o desencanto uma marca dos nossos dias? Levante aí o dedo salvador quem ainda tem uma bandeira de consistente ideologia.

Tomados de desencanto, na vibração do azulado e fascinante planeta Melancolia, caímos no tédio e na prostração. Voltando ao dicionário, a tristeza da melancolia pode ser vaga e até doce, favorecendo o devaneio e a meditação. É aquela tristezazinha boa de sentir, sem causa aparente, que nos faz poetar diante da bruma na janela. Não mata. Mas achata.

Ok, se o fim é certo, a melancolia é sintoma. E a saída? Uma caverna mágica onde se esconder, um lugar de imaginação e esperança, qualquer forma de arte. Pois a arte sempre vai salvar o homem. Sempre.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Crônicas portuguesas 4: Depois do santuário


Nivaldo Pereira
Publicada no Pioneiro, 29/05/2009

Eu tomava uma taça de vinho, num café de Lisboa, anotando em meu diário de viagem as impressões do dia. Tinha ido ao Santuário de Fátima. Fora motivações de fé pessoal, eu gosto de conhecer um país também pelo seu aspecto religioso. E ficara impressionado com a mística do santuário. Há algo no ar. Meu lado mental logo veio explicar que esse algo “fluido” é fruto das intenções de milhares de pessoas que para lá se dirigem, em busca de contato com o divino. É psiquismo coletivo. Mas que importa a origem da força? Deus lá fora, ou Deus cá dentro, como motivador, que diferença faz, se o milagre possa ser real?

Anotei no diário que a famosa azinheira, sobre a qual Nossa Senhora teria surgido para três crianças, em 1917, foi desfolhada pelo povo nos anos seguintes às aparições. Não restou nem um graveto da árvore. Outra azinheira próxima é hoje protegida por grades. Achei o máximo esse toque pagão da fé.

No meio das anotações, por uma magia absoluta (não há espaço para relatar isso), fiz dois amigos, um deles professor de história. Entre animados papos de coisas portuguesas e brasileiras, fomos jantar bacalhau na Alfama. E falei que estivera em Fátima de manhã. O historiador olhou-me decepcionado. Explicou que a exploração das tais aparições da Virgem em Fátima foi um dos grandes golpes do ditador Antônio Salazar para dominar o povo. Um embuste histórico, garantiu-me. E citou fatos e conchavos políticos, num claro relato de teoria conspiratória. Não pude esconder o espanto.

Em busca de suportes de fé mais sólidos, lembrei que estávamos perto da casa onde tinha nascido Santo Antônio, quando este ainda se chamava Fernando. Fernando? Como assim? O espanto agora era do professor. Contei que o nome de batismo do santo era Fernando, que adotara o Antônio somente quando virara franciscano. Contei ainda que o poeta Fernando Pessoa nascera a 13 de junho, dia do santo português, por isso fora batizado de Fernando Antônio. Interlocutores de bocas abertas. Surpresos.

Ah, viagens, viagens. Tem coisa melhor no mundo do que conhecer outros mundos e partilhar nossos mundos?

Crônicas portuguesas 3: curta-metragem gótico


Nivaldo Pereira
Publicada no Pioneiro, 27/03/2009

Quantos anos teria ela? Talvez 17. Dentes para fora, olhos sonolentos e muitas espinhas no rosto anguloso contribuíam para a primeira impressão: era uma garota muito feia. Estava na parada de ônibus onde eu e meu amigo chegamos, no centro da cidade de Porto, com as calças ensopadas pela chuva fria açoitada por um vento que a toda hora virava nossos guarda-chuvas. Foi assim que Porto me recebeu, eu vindo de trem de Lisboa: com céu borrascoso e ventania gelada. Meu amigo esperava-me na estação. Deixei o mochilão na casa dele, e fomos dar uma banda no centro, tagarelando nossa paixão comum pelo cinema. Passeio abortado pelo clima, melhor ver um filme em casa. E encontramos a mocinha medonha naquela medonha noitinha.

Ela encarou-nos separadamente, feito hipnotizadora, de olhos fixos. E puxou conversa com meu amigo, eu de platéia. Dúvida sobre o número do ônibus que passava no bairro dela, a demora, o mau tempo. Aí ela tirou da bolsa um DVD e mostrou: “Ao menos ter vindo à cidade valeu por achar este filme”. Era Hellboy 2. Meu amigo comentou o primeiro filme, legal, coisa e tal. E ela: “Mas eu gosto mesmo é do Val Helsing, porque reúne os monstros clássicos”. E disse que tinha uma miniatura de um castelo assombrado, que costumava por na janela do quarto. Meu amigo deu corda: “É para afugentar os fantasmas?”. Ela, em sotaque português: “Ou para convidá-los, não sei bem.”

Eu estava achando o máximo aquele curta-metragem insólito sobre cinema de horror no sombrio cair da noite sobre Porto. A garota feia prosseguiu: “Conhecem os irmãos gêmeos? Há sempre um bom e outro mau. Eu sou assim, este é meu signo. Nem sempre sou boazinha, tem dias que sou muito malvada.” Corte abrupto na narrativa: o ônibus esperado por ela chegava. Sem dar tchau, seguiu a pequena fila para entrar, encarando as pessoas, como havia feito a nós. Rimos da figuraça. Geminiana, como eu, luzes e sombras na alma, dialética e humor como salvação.

Dia seguinte, ao sair para trabalhar, meu amigo acordou-me anunciando um surpreendente sol em céu azulão lá fora. E eu saí para viver outros filmes.

Crônicas portuguesas 2: Fados


Nivaldo Pereira
Publicada no Pioneiro, 17/04/2009

Viagem feita jamais cessa de recomeçar. Pois sempre surge a memória, liberta do passado, a recriar a viagem a cada evocação, ampliando-a, recortando-a de mil maneiras, lançando-me outra vez na estrada. Por isso, não sigo a pressa de fixar o já vivido em trânsito num jorro contínuo de confissões. Busco, sim, ruminá-lo devagar, qual boi manhoso que, na aprazível noitinha do curral, degusta sabores inéditos nas dobras sutis do capim engolido displicentemente na voragem do dia. Na bovina languidez do agora, o cheiro de pão torrado na vizinhança me conduz ao odor similar da cozinha do albergue em Lisboa. E a viagem se reinventa, no café matinal entre estrangeiros como eu.

Passo manteiga na fatia torrada de pão. Os ouvidos fisgam a voz de uma jovem ajudante da cozinha ao lado. É uma negra retinta e bonita – pelo sotaque, certamente vinda de alguma ex-colônia portuguesa na África. Volta e meia pergunta à colega de cozinha – esta, sim, portuguesa – como se diz alguma coisa. Há forte lamento no tom da negra. O que se confirma na primeira frase que escuto inteira: “Sofro por causa daquele homem desde meus 15 anos de idade”. Espicho todas as minhas 800 orelhas. Ela desfia seus infortúnios. Era mocinha, inocente, e mesmo assim o pai a expulsou de casa, quando soube do romance dela com o tal homem. Chovia torrencialmente, a noite era tão escura que nada se podia ver no caminho. Ela saiu andando, na lama, chorando, com medo dos raios...

Um hóspede interrompe o relato, pedindo mais leite. Fico fazendo hora, querendo o fim da história. Mas a negra se cala. E eu saio à rua. Vou da Baixa ao Chiado, onde ouço, numa ladeira, a voz de Amália Rodrigues a entoar um fado pungente. A canção sai de um quiosque de discos, bem na rua. Dias depois, vejo no documentário Fados, de Carlos Saura, que o ritmo português nasceu da troca cultural havida com a gente vinda das colônias de África e Brasil. Assim, brasileiro, adiciono ao fado real da negra e ao canto de Amália, meu herdado dom de ser um sentimental. E a viagem se redesenha em fragmentos de lusitana saudade, a compor inesperados azulejos.



Crônicas portuguesas 1: Quatro túmulos e dois cegos


Nivaldo Pereira
Publicada no Pioneiro, 13/03/2009

Oeste de Lisboa. Fustigada pelas águas inquietas da foz do Tejo, a Torre de Belém revela em suas pedras a ousadia mítica do povo que fez do mar vereda para o desconhecido. Ali perto, o Mosteiro dos Jerônimos dá testemunho, em sua arquitetura no estilo gótico manoelino, do quanto valeu a pena tal ousadia. Glória de Deus, bravura dos homens, riquezas do Brasil recém-achado, e eis a suntuosa edificação religiosa que impressiona e encanta com seu rendilhado na fachada. Dentro da igreja, um vitral faz incidir a luz da tarde sobre um túmulo portentoso, o do poeta Camões, cujos versos louvaram os feitos de Vasco da Gama, o intrépido navegador que rasgou do oceano uma nova rota para o Oriente e que repousa em outro túmulo espetacular, mais à esquerda. Gostei de vê-los ali, alinhados, o herói e seu trovador, história e poesia em parceria de eternidade.

Mais adiante, sob um silêncio quase sólido, dou de cara com um túmulo sobre dois elefantes de pedra. A inscrição informa: Dom Sebastião. Mas é túmulo de ficção, pois o jovem rei português nunca retornou da batalha contra os marroquinos em 1578, nem seu corpo foi jamais encontrado. No entanto, esperar pela volta do rei, envolto em névoas, virou uma seita que chegou até o nordeste brasileiro. Lembro na hora dos versos de Fernando Pessoa: “Quanto é melhor, quando há bruma, / Esperar por Dom Sebastião, / Quer venha ou não!”

Logo depois, fora da igreja, no claustro do mosteiro, dá-se a surpresa. Três cubos empilhados guardam os restos mortais dele, Fernando Pessoa. Uma professora explica aos aluninhos que a poesia do Pessoa era tão imensa, que ele precisou inventar outros nomes para dar conta do dom. Aí, passa um rapaz, guiado por um cão, tendo ao braço a mão zelosa de uma senhora. Um cego muito bonito, feito modelo. As crianças olham. Eu olho. O que faria um cego num museu? Sorveria atmosferas? Versos numa das faces dos cubos de Pessoa respondem, magicamente: “Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio. / Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e flores.”

Lágrimas em jato turvam tudo. Choro no claustro, de pena da minha cegueira.

O imaginário das ruas


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 19/08/2011

Gosto de artes que definem ou reinventam espaços reais. Por exemplo: músicas e poemas sobre cidades, bairros, ruas. Quando transito por algum lugar que já tenha sido cantado ou contado antes, o imaginário sempre emerge como um começo de diálogo com tal território. É uma delícia flanar pelas ruas de Porto Alegre com a bússola do Quintana ou mergulhar no mar da Bahia sob as ondas do Caymmi. Não consigo transitar pelo cruzamento das avenidas Ipiranga e São João sem evocar a Sampa do Caetano. Ou caminhar pelo Recife sem atentar para os rios, pontes e overdrives do Chico Science.

O imaginário é poderoso. Não fossem os romances de Erico Verissimo, lidos na adolescência, posso quase garantir que jamais deixaria a Bahia para viver no Rio Grande do Sul. Muito do fascínio que sinto por Minas Gerais deve-se aos livros do Guimarães Rosa e às canções do Milton Nascimento. É bíblico: o verbo está no princípio. E quando este verbo vem embebido de uma prosa magistral ou de versos musicados, pronto: o mundo que ali se anuncia ganha ares míticos, espaço de fantasia, morada de deuses e heróis. A Baixa dos Sapateiros de hoje pode ser feia e suja, mas ali para sempre andará a morena mais frajola da Bahia – como quis Ary Barroso.

Na vibração do Tolstoi, falar da nossa aldeia é premissa para um alcance universal. A Caxias do Sul da obra de José Clemente Pozenato, em livro e filme, correu mundo. A cidade, assim, ganhou uma relevante cartografia mítica. Só acho que a moderna Caxias é pouco mapeada pelos seus artistas. Há muita nostalgia e memória e raro trato à bola contemporânea. Desconfio que possa haver aí um medo de se soar provinciano ou que falte mesmo amor pelo lugar em que se vive. Entre honrosas exceções, cito os versos urbanos do Dhynarte Albuquerque e as canções da Camila Cornutti. Mas é pouco.

Alô, poetas e músicos: já para as ruas! Há sonhos espalhados nas calçadas da Júlio, há juras de amor no Parque dos Macaquinhos, há delírios na Praça Dante, há pressa na Visconde e promessa na Garibaldi. Olhem: eis uma cidade enorme, ainda emudecida sobre a própria identidade.

domingo, 14 de agosto de 2011

O caso da coelha


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 12/08/2011

Diante de mim, no nervoso centro urbano, uma coelha segurava um cartaz com ofertas de uma financeira. Propaganda oportunista essa, que buscava na época da Páscoa o tema de seu reclame, fazendo a mocinha pagar o mico de parecer uma coelha na multidão. Uma tiara na cabeça segurava duas orelhas de pelúcia, combinando com a maquiagem no rosto e com um aventalzinho de bolotas. Pelo menos pouparam-na de um pompom no popô, o que daria ares maliciosos à personagem, certeiras alusões às coelhinhas da Playboy.

Eu olhei a cena, ri muito do ridículo da menina, e para compensar minha maldade até louvei sua disposição para o trabalho. Naquele sol da tarde, trabalhando honestamente, que beleza. Só que alguma coisa ali não funcionava, a fantasia não me convencia. Olhei-a de novo, saí pensando que a mocinha, por detrás do sorriso simpático, estava detestando aquele serviço. Eu logo julguei: vai ver foi só o que ela encontrou, uma coisa avulsa de entregar folhetos e segurar cartazes. Uma grana certa, mas um serviço para o qual ela não fora talhada. Tudo comum, tudo normal: nem sempre se faz o que se gosta. E esqueci da coelha.

Uma hora depois, voltando pela mesma rua, avistei outra vez a personagem. De novo sua performance de coelha me passou desconforto. Foi quando avistei, do outro lado da rua, outra jovem com igual fantasia. Obviamente, as duas eram colegas da mesma propaganda. Mas a de lá passava seriedade. Ali estava uma coelha de verdade! Havia entrega, havia verdade nela. Quando eu ia destilar desprezo pela má coelha, percebi no rosto dela o detalhe que certamente tinha detonado minhas conclusões sobre a fajutice de sua atuação: a moça usava óculos!

Quem vai acreditar numa coelha de óculos, se desde crianças nos dizem que cenoura, comida amada pelos roedores, é ótima para a visão? Bingo, coelho de óculos é pura contradição! Para me purgar do mau juízo, até peguei uns panfletos com a coelha míope. Tadinha. E segui pela rua refletindo sobre as tantas vezes em que nosso olhar capta mais do que a nossa consciência, alimentando apressadas associações e péssimas conclusões.

sábado, 6 de agosto de 2011

Olha a Lua!

Mais um vídeo do quadro Astrolábio, na UCS TV, desta vez sobre a Lua e seu fascínio.

Ele nasceu no mês do Leão

Neste domingo, 7 de agosto, é aniversário do Caetano, leão de fogo, um sol pai de toda cor na canção popular. Em homenagem a ele e aos leoninos, vai abaixo um clipe de O Leãozinho. Bem, as imagens são óbvias, mas a música, apesar de batida, permanece como um hino a este signo felino.

A mala invisível


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 05/08/2011

Mesmo o mais despachado viajante, o que carrega apenas o essencial numa mochila, mesmo esse sempre leva duas bagagens: uma visível, outra invisível. Há sempre uma “outra“ mala a nos acompanhar, presa com cadeado no armário de nossa mente. Nesta mala extra, levamos e trazemos coisas imateriais. É até óbvio constatar que costumamos voltar de viagem impregnados de inéditas emoções, aprendizados e iluminações. Viajar é oxigenar a alma. O problema é o que levamos desde casa, nessa mala simbólica.

Viagem é entrega, usufruto do novo, partilha do desconhecido. Queremos prazeres e aventuras para fora do nosso cotidiano, e é quando uma outra cultura, com diferentes paisagens e tipos humanos, nos fornece farto material a ser degustado. Estranheza, encantamento, rejeição ou assimilação serão reações possíveis, durante ou após a viagem.

Em tese, ninguém sai de casa se não quiser se abrir, relaxar, receber. Regressar com a mala invisível cheia é a glória de qualquer jornada. Só um porém: não é fácil sair com a tal mala totalmente vazia. Há bolsas secretas plenas de molduras e padrões. São nossos valores rígidos, nossos conceitos formados, nossos julgamentos – em outras palavras, nossos preconceitos.

Preconceito carregado – porque entranhado na mente – é feito entrada barrada em país estrangeiro. Um carimbo negativo, uma porta fechada por nós mesmos. Por que viajar se o tempo todo vamos procurar a mesma comida de casa e manter os mesmos hábitos e programações? Nossa moldura interna pode inutilizar a viagem. Não traremos nenhuma nova luz no espírito, por conta do excesso de bagagem de ida.

Essa questão, potencializada em viagens, é uma ampliação do nosso exercício de contato diário com o outro. Como acolhemos o outro em sua diversidade e originalidade? Que espaço abrimos para o que não faz parte de nosso mundo?

Ah, como seria perfeito se todos fossem iguais a nós... Mas aí não teríamos nada a oferecer nem a receber. Seríamos estátuas perfeitas, monumentos que os turistas de mala invisível vazia registrariam em fotografias. Curiosas imagens do que ficou parado no tempo.

Do angu à polenta


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 29/07/2011

Um pouco de água numa panela, uma pitada de sal, acrescenta-se farinha de mandioca aos poucos, mexendo sempre para não embolar, até a mistura ficar na consistência desejada, retira-se do fogo. E está pronto o angu, que muitos vão chamar de pirão. Eu sempre fui chegado num angu, coisa da infância, como um estágio posterior à papa primordial, mas com semelhanças. Minha mãe sabia desse meu gostar: naqueles agrados de convalescença de gripes e afins, lá vinha ela com um prato de angu e um bife com molho em cima.

Eu adorava espalhar o angu pelas bordas do prato, para esfriar, e ir comendo pelas beiradas. Ou então sulcava trincheiras por onde o caldo do bife escorria, delimitando regiões no maleável território do angu. Com essa comida lúdica, eu chegava a abrir mão do arroz com feijão para preferir um bom anguzinho como base. Tanto que ganhei do Osvaldo, um excêntrico primo do meu pai, o apelido de “menino do angu”. Angu e infância são indissociáveis para mim.

Em outras regiões do Brasil, o angu se faz com farinha de milho, como em Minas Gerais. E adivinhou quem enxergou nessa variação mais rústica a célebre polenta italiana. Angu de milho e polenta: tudo farinha do mesmo saco. Eu, que desconhecia a polenta mole e que tive com esse prato da culinária serrana uma identificação plena, já trazia na memória das papilas gustativas o efeito da variante angu. Adoro polenta mole e levo prejuízo quando a encontro nos bufês a quilo, porque, tão barata (no custo de produção) quanto pesada na balança, ela joga minha conta lá para cima. Mas quem mandou encher o prato, ó guloso?

Curioso é que, modos de preparo e caprichos à parte, a polenta trazida pelos imigrantes italianos já era comida no Brasil há séculos com o nome de angu. O milho é originário do continente americano e foi levado à Europa pelos navegadores vindos de lá, como o genovês Cristóvão Colombo. Por esse enfoque, polenta mole é o angu de volta às origens.

Agora vou me imaginar menino cavando um vale no prato de angu/polenta mole para inundá-lo com uma montanha de frango ao molho. O passado adora traçar destinos.

Mr. Allen


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 22/07/2011

Há quanto tempo adoro Woody Allen? Talvez desde meus 13, 14 anos, quando vi na televisão, numa seção coruja, o filme A Última Noite de Boris Grushenko, que é de 1975. Ainda na adolescência, sempre na tevê, conferi Bananas e O Dorminhoco. Fiquei mais que fã daquele cara irreverente, com seus inconfundíveis óculos, seus cabelos desgrenhados e um perfil entre o inteligente sutil e o trapalhão. Desde então, não perco um filme seu. Agora que assisti no cinema o mais recente, Meia Noite em Paris, percebo que sigo gostando demais dele. Aliás, em tempos de relações tão instáveis, chego a gostar mais de mim mesmo por sustentar há tanto tempo a mesma afeição devotada pelo Woody.

Não quero aqui fazer resenha de Meia Noite em Paris, pois sou suspeito, vou jogar confetes, um saco de confetes. Saí do cinema com uma idéia primeira para esta crônica: imaginar em que época da história e com que personagens eu gostaria de passar umas noitadas, na magia de viajar no tempo ao badalar de algum relógio à meia noite. No calor do filme, cheguei em casa e me atraquei no livro Conversas com Woody Allen, de Eric Lax, que aguardava minha atenção na estante há meses. São anos de entrevistas com Woody, sobre seu processo criativo, sua vida, seus amores, tudo, enfim. No livro vou conhecendo o homem por detrás do personagem, o trabalhador disciplinado por detrás da pinta de neurótico. Woody Allen é mais sério do que deixa transparecer!

Eu que sempre me perguntava como ele tira da cabeça tantas boas sacadas para fazer um filme atrás do outro, descobri no livro um fato notável: Woody anota todas as idéias que tem, todas mesmo, e as guarda numa sacola. Feito mágico, vive de tirar dessa cartola improvisada as cenas imaginadas muito antes. Cruza uma com outra, junta essa com aquela, e imagina que história pode acontecer. Uma idéia só cai fora quando realizada. Então o que eu pensava ser mera genialidade tem alta dose de rigor e cuidado?

Oh, acabou o meu espaço! Mas, lição aprendida, a idéia original para esta crônica está devidamente anotada. Qualquer dia puxo ela da caderneta. Thanks, mestre Allen.

domingo, 17 de julho de 2011

Mosca na crônica


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 15/07/2011

Você me pergunta que negócio é esse de linguagem, e eu digo que o jeito mesmo de você perguntar já é um diferencial, seu palavrório peculiar, porque sua afirmação no mundo acontece por essa linguagem própria, que instaura um universo, mas você não parece entender e fica apenas rindo da minha cara, e é quando eu rebato, meio zangado, que detesto essa sua atitude de escárnio ante o que não compreende, e que isso é típica defesa infantil, naquela base da criança mimada que, quando contrariada, desmancha o jogo ou grita me dá minha bola, e só para me provocar, como se eu não tivesse previsto tal reação, você se infantiliza ainda mais e me faz cócegas, levando a questão para um desenlace idiota, e eu rio, é claro, pau da cara, mas rio, pois sempre fui muito sensível a cócegas, e você muda de assunto, esquece tudo, não quer mais saber de linguagens.

Nada mais diz. Um traço sombrio no olhar. Que mira o vazio. Por que você é assim? Sabe que isso me incomoda. “Isso” o quê? Não se ouve palavra. A boca não pergunta. Mas o olhar, sim. Aprendi a traduzir sua mudez. Respondo mentalmente. Isso-isso, ora, esse traço seu. Traço chato, besta. Mania doida de fugir do sério. Coisa bipolar. E de repente a seriedade é crônica. Radical, nada chique. O silêncio soa depressivo. Sinto ganas de ir embora. Emudeço também. Mas sempre contemporizo. Puxo um assunto leve. Só para trazer você de volta. E me frustro. Porque ardo de raiva. A vontade é de sair pisando duro. Dizer-lhe verdades cruas. Só que você pode me vencer. Jogar-me na cara que o infantil sou eu. Que não tenho senso de humor. Daí, fico. Aqui, do seu lado. Duas crianças birrentas. Competitivas. Nunca gostei de espelhos.

Chega desse trololó, saiam já da minha crônica! Tenho coisas sérias a escrever!

A voz do cronista é tonitruante. Você acha graça da palavra tonitruante. Aquele que troveja. Eu também rio. E juntos desafiamos o senhor autor. Why so serious? Me Curinga, you Batman. Me Tom Zé, you chimpanzé. A voz do cara troveja mais, promete apagar a gente. Pois pode tentar, otário! Hoje somos a mosca que pousou em sua crônica.

A professora televisão


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 08/07/2011

No Brasil, onde a educação formal só ganha destaque por deficiências e polêmicas, é curioso observar a função educativa de seu ainda mais importante meio de comunicação, a televisão. Sim, a televisão é professora no Brasil. E seu principal produto em audiência, a telenovela das nove da noite, é o quadro negro portátil que diariamente segura a atenção de alunos de todos os rincões.

Há muito, toda novela traz em seu enredo uma ou várias campanhas sociais, sobre inclusão, denúncia ou mudança de comportamento. Soa bizarro um produto de entretenimento, de base fantasiosa, como a novela, assumir papel tão importante na cidadania. Mais bizarro ainda é a gente legitimar tal magistério eletrônico. Pelo menos a televisão está fazendo algo, pensamos.

Nada contra esse padrão. Pelas evidências, há mudanças significativas na sociedade, ou nas ações governamentais, quando determinado tema é abordado na novela da vez. Nos últimos tempos, por causa da empatia com personagens de novela sofrendo com desatenções e preconceitos, certos tabus sociais ganharam visibilidade e discussão. A trama de agora estampa o tema da homofobia, e antes vieram as drogas, a gravidez na adolescência, a esquizofrenia, a cegueira, as compulsões afetivas, os direitos dos idosos...

Repito: nada contra isso, pois louvo qualquer ação por um mundo melhor. Mas fico incomodado com duas coisas perigosas. Uma é a oficialização da temática social nas novelas: de um lado, vincula ao real o que era para ser mero entretenimento, e de outro, vai atenuando as devidas responsabilidades governamentais com os problemas abordados, além de atestar sua incompetência.

Outra coisa é a real eficiência dessas campanhas, a longo prazo. Novas novelas virão, com outras temáticas. O que de fato muda na sociedade sobre a questão, quando esta já não está no ar? Huumm... Fica parecendo uma grande maquiagem, uma moda do bem, uma ilusão de solução. Trazemos para o real a ficção da novela. E a raiz dos problemas permanece.

Sem querer ser ranzinza, prefiro uma escola forte, professores de carne e osso e novela com cara de novela.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Nosso lugar no mundo


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 01/07/2011

Na gélida noite do último sábado de junho, os caxienses que foram ao Sesc ver o Concerto de Ispinho e Fulô saíram de coração fervente de emoção. O espetáculo do grupo paulista Cia do Tijolo, em turnê pelo sempre elogiável projeto Palco Giratório do Sesc, mais do que apresentar vida e obra do poeta cearense Patativa do Assaré e de contar a saga do místico Arraial do Caldeirão, promoveu uma degustação literal da essência do Brasil. Digo literal porque, em certa hora de festa, foram servidos à platéia cafezinho quente, cajuína e uma pinga mineira daquelas. Teatro de imersão, experiência de vida, coisa boa demais.

Cajuína? Muitos estranharam o nome do refrigerante de suco de caju tão popular no Nordeste. Mas se permitiram uma entrega àquela saborosa aventura algo circense, confiantes na trupe de atores, cantores e músicos sobre uma lona em que o mapa do Brasil tinha seu contorno.

A vivência em torno de Patativa do Assaré e seu mundo regional revelou-se um mergulho na alma universal do homem, a responder com arte aos desafios da realidade. Ainda que as cores, hábitos, falares e sons nordestinos tenham dado o tom da narrativa, o que cada espectador experimentou foi um contato prazeroso com sua própria alma, sua terra, seu eixo único, sem os quais o viver perde em sentido.

Essa crônica não é somente a confissão de uma profunda emoção sentida em tempos gelados. Tampouco quero suscitar a inveja em quem não foi ver a peça. Quero é pegar o mote do canto amoroso à própria origem para lançar a opinião, talvez fruto do meu olhar forasteiro, de que falta a Caxias do Sul uma abordagem mais gentil e afetiva para consigo mesma.

A regra é dizer que Caxias é fria, Caxias é difícil, Caxias é dose. Mesmo quando louvada, é por traços redutores como “lugar de trabalho e seriedade, terra de oportunidades”, alçados a aborrecidas e repetitivas elegias. Ora, convenhamos, uma cidade, um lugar de viver, é bem mais que isso.

Todo jardim tem flores e espinhos. Olhar apenas os espinhos ou apregoar a perícia dos jardineiros já é uma questão de opção.

Desperta para tuas flores, Caxias!

Aniversário do blog

Este blog completou ontem, dia 30 de junho, um ano de criação. Gracias, thanks, obrigado aos visitantes novos e de sempre; sem vocês o Terceira Casa não tem sentido, nem tem sentido o partilhar de impressões subjetivas e emoções que dá base ao blog. Para comemorar, posto abaixo o belo clipe da canção Eduardo e Mônica, da Legião Urbana, dirigido por Nando Olival para a Vivo, em comemoração ao Dia dos Namorados. Nando Olival é parceiro do Fernando Meirelles na direção do ótimo Domésticas, o Filme. O cara é muito bom. Curtam o vídeo. Eu curti muito.


domingo, 26 de junho de 2011

Mais um Astrolábio

Vai aqui mais um quadro Astrolábio, agora focando a cidade de Caxias do Sul em seu aniversário. Este quadro vai ao ar semanalmente, às quartas-feiras, cada dia com um tema diferente, dentro do programa Estúdio Aberto, da UCS TV.

Reflexões no táxi


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 24/06/2011

O falante motorista do táxi me conta que odeia o inverno. Ainda é novo, tem menos de 30, mas já tem um projeto definido: trabalhar bastante, fazer um pé de meia e ir morar no litoral. Talvez no Espírito Santo. Beira de praia, calorzinho o ano todo. Diz que pratica jiu-jítsu, sofre horrores no frio. Mas não reclama: sua espera é questão de tempo. Só não entende como as pessoas vivem se queixando do clima, mas não se mudam, não fazem planos para isso. Quase todo passageiro que entra em seu táxi já chega metendo o pau no inverno, na cidade, na vida. Cara, por que não vão embora? O clima não vai mudar por causa deles...

Gosto da reflexão sensata do motorista. Dou corda. Ele segue o baile. Inverno é dose, ninguém merece. Mas, os incomodados que se mudem, não? Ele vai mudar, um dia, vai sim. Não entra nessa onda de gaúcho de achar que essa terra é a melhor do mundo. É um lugar como outro qualquer. Só não quer sair de qualquer jeito. Tem que ser por cima. É nesse ponto, diz, que sente o orgulho gaúcho, de ser um vencedor. Não vai ser como um amigo, que tentou convencê-lo a ir morar em Londres a pretexto de ampliar horizontes, mas vivendo sem um teto, sem emprego legal. Cara, ele já está lá faz quatro anos, morando aqui e ali, dividindo quarto com uma penca de gente, sem privacidade. Isso é vida, cara?

Chego ao meu destino, desço do táxi, mas fico com as questões levantadas pelo simpático motorista. Será que nossos triviais queixumes, como aqueles contra o frio, não seriam feito muletas? Sem elas, teríamos que levantar e andar, tomar providências para melhorar de vida. Na falta de metas e planos, nos queixamos das miudezas, da natureza, de tudo. Ah, não fosse esse clima horroroso... Arqueiros sem alvo, disparamos nossas setas de ressentimento contra tudo. Ou idealizamos a salvação num mundo distante, sem ver que este sempre será um mundo alheio.

Há pouco, um problema me inquietava. Desfiei queixumes silenciosos, aí me lembrei da filosofia do taxista. Estabeleci metas, limites. Até ali, e nada mais. Fiquei na boa. O negócio funciona.

E que seja bem-vindo o inverno.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Procissão


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 17/06/2011

Olha lá, vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão. As pessoas que nela vão passando, acreditam nas coisas lá do céu. Acreditam piamente em Santo Antônio, o homenageado deste chuvoso 13 de junho.

São centenas, talvez milhares, de devotos do santo, cuja imagem, entre flores, vai num andor sobre um automóvel. Desde a saída do cortejo, às seis em ponto da tarde, de defronte à igreja do santo, no bairro de mesmo nome, centro antigo de Salvador, uma banda musical de sopros e bumbos dá o tom das rezas.

Se milagres desejais, recorrei a Santo Antônio. Rogai por nós, ó Antônio, lá no céu. Bem merecestes ter, com amor, em vossos braços, o Salvador.

E segue a cobra humana pelas ladeiras do vizinho bairro do Barbalho. Castiçais feitos de garrafas plásticas protegem as velas acesas do vento. Velhinhas seguram terços. Outras levam imagens do santo. Tem quem leve flores. Tem quem leve, pela mão, o filho que recebeu graças. Tem quem leve, pelo braço, o amor conquistado. E tem gente de mão vazias, a pedir, pedir.

Nas sacadas dos sobrados da velha São Salvador, moradores estendem toalhas de renda branca, sobre as quais outras imagens antoninas saúdam os passantes. Alguns atiram pétalas de rosas, outros aplaudem ou acenam. E, de repente, chove.

Abrem-se guarda-chuvas e sombrinhas, tingindo-se a procissão de lindo efeito estético. Desprevenido, eu me ensopo no aguaceiro. Covardia correr, desistir. Baianos gostam de banhos cheirosos, de ervas e flores. E quem haveria de dizer que tal chuva não vinha abençoada?

Súbito, a rua se estreita. Poças de lama por entre o calçamento quebrado. A realidade se impõe. Ao meu lado, alguém reclama: “Este Barbalho está entregue às baratas”. Mas os cânticos não cessam. Agora a banda puxa temas antoninos da canção popular. Uma levada animada, quase carnavalesca. É impressão minha ou o padre está dançando?

Eu revejo lugares por onde muito andei e por onde há muito não passava. Casas típicas, ruas seculares, caras felizes de gente que crê na vida.

E, na procissão, reaprendo a lição baiana: vamos andar com fé, que a fé não costuma “faiá”.

Era de Aquário

Mais um vídeo do Astrolábio, agora sobre a Era de Aquário.

Geminianos

Antes que o signo de Hermes, o deus de asas nos pés, passe voando, insiro aqui um vídeo sobre o tema. É o quadro Astrolábio, do qual eu participo, na UCS TV, sob a condução da Vivi Salvador. O quadro vai ao ar todas as quartas-feiras, no programa Estúdio Aberto, às 19h. Adiante, postarei outros vídeos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A vida nas estantes


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no jornal Pioneiro, 10.06.2011

Imagine o retorno à cidade grande de uma pessoa que tenha estado reclusa nalgum mosteiro do Nepal por 30 anos, sem acesso a informações de massa. De volta ao Brasil, enquanto espera por aviões ou ônibus, essa pessoa examina os títulos dos livros à venda em aeroportos e rodoviárias. Quer saber o que o povo anda lendo, quer tecer um panorama dos valores atuais. Imagine que tal pessoa é você. Dirija-se, então, ao maior balcão de títulos publicados.

Manuseando o livro Como Chegar ao Topo, sua primeira impressão será a de que as ambições de sucesso seguem dando o tom do mundo. No próximo a ser folheado, Você É Feliz no Trabalho?, a ambição primeira parece buscar parceria com a felicidade, numa realização plena. Aí você olha o Viver sem Estresse – e talvez alguém tenha que lhe explicar o que é estresse, coisa de que ninguém falava há 30 anos. E você localiza na pilha Não Leve a Vida Tão a Sério, O Poder da Paciência, O Poder do Agora, Pare de Reclamar e Concentre-se nas Coisas Boas e Aprenda a Viver em Paz. Você questiona: estaria a humanidade atormentada com as seqüelas do consumismo e da busca do sucesso? Ou estaria fazendo da paz mais um item de consumo obrigatório?

Então seu olhar se detém sobre títulos que pregam o autoconhecimento: Aprendendo a Gostar de Si Mesmo, A Aventura de Viver Seus Sonhos e Faça as Escolhas Certas. Oh, isso é bom, é bom sinal de sintonia com a própria verdade. Mas, ao espiar outros títulos, você já acha que todo mundo quer mesmo é conhecer o outro para fins de dominação. Ou seja, o sucesso no amor é outra obrigação. Estão lá: Do que os Homens Gostam, Será que a Gente Combina?, Deixe os Homens a Seus Pés, O Segredo das Mulheres Inteligentes, Por que os Homens Amam as Mulheres Poderosas?, Desvendando os Segredos da Atração Sexual, Por que os Homens Mentem e as Mulheres Choram?
Você está em confusão. No quesito amor, o mundo ficou mais informado e mais ignorante! Você examina mais dois: Como Encontrar um Marido Depois dos 35 e Troco o Príncipe Encantado pelo Lobo Mau.

E você tem a certeza de que vai precisar de mais 30 anos no Nepal...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Meu caro ciberpirata


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 03.06.2011

Não lhe chamarei de hacker, pois descobri que esse termo nomeia os técnicos que alteram os computadores visando melhorias. O nome certo para você, que quer entrar nos sistemas alheios com fins maldosos, seria cracker, mas eu prefiro usar ciberpirata mesmo. Pirata cibernético, ladrão de dados, espalhador de vírus, você vive de invasões, saques e destruições. Você é um ser do meu tempo, que eu só conheço pelas sucessivas abordagens. Hoje eu quero lhe dar uns toques.

Faço isso somente por admirar sua inteligência. Aliás, admiro todo mundo que tenha um talento que eu não possua, como o seu, de navegar com desenvoltura nas turvas águas do infomar. Sou jurássico, nasci a.C. (antes do Computador), e pirata para mim era o Capitão Gancho ou o Barba Negra. Quando guri, até me imaginei andando na prancha com uma espada às minhas costas, mas jamais acreditei ser atacado de verdade por piratas. Meu lado criança até acha isso uma honra. Mas, basta de confidências, e vamos aos toques prometidos.

Cara, já chega dessas abordagens com links venenosos anunciando uma foto comprometedora. O truque ficou manjado, todo mundo deleta sem abrir. No meu caso, o pior – e isso depõe contra sua suposta inteligência – é o texto sofrível. Você acha que todo mundo fala em internetês, com aquelas abreviaturas medonhas? E a risadinha kkkkkkk? Mude de tática urgente, seja um pirata de respeito. Aprender português ajuda muito.

Outro truque barato é o e-mail do banco pedindo confirmação de dados. Você nunca acertou o banco em que tenho conta! Claro que, em milhares de mensagens enviadas, algum incauto vai cair na boca de seus tubarões. Só que essa estratégia burrinha denigre a categoria dos piratas. Lembre-se que Jack Sparrow, pirata do seu tempo, pode ser covarde, mas não é burro.

Amigo piratinha, o meu último toque: digite “ética” no Google, tente entender do que se trata. Depois, use sua inteligência para rastrear o tesouro perdido do Barba Negra. A recompensa virá em fama e fortuna. Bem melhor que celebrar em silêncio pelos computadores que foram para o conserto por sua causa, não acha?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Lirismo em vermelho


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 27/05/2011

Uma obra lírica e sofrida sobre o universo da infância. Vermelho Amargo chama-se o livro do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, que devorei com imenso prazer. Já tinha ouvido falar do escritor, estava em minha lista de buscas, até que vi este novo lançamento seu numa livraria e comprei no ato. Li de uma sentada, ou melhor, de uma deitada, estirado na cama. Uma feliz experiência, que quero compartilhar aqui.

Numa prosa poética emocionante, um narrador menino tece seu fluxo de memórias. Um tomate é a metáfora que liga os fragmentos de lembranças da família. É o tomate que a madrasta fatia finamente a cada refeição, para adornar a comida sua, do marido e dos enteados. “Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós.”

A emoção tingida pela perda da mãe pontua a narração do menino. “A mãe partiu cedo – manhã seca e fria de maio – sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos.”

Num relato curto, de cunho autobiográfico, e sempre rico em imagens poéticas, Queirós nos prende definitivamente em sua rede literária, beirando o tom dos contos de fadas. Sentimentos são transfigurados em rituais domésticos, da raiva presa ao tomate a outras expressões, mais doces, ligadas à mãe. “Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais. Em tudo, sua ausência estava presente. Sobre a fruteira da mesa da sala de jantar, na janela em que se debruçava nas tardes, na gota de água que pingava da torneira, no anil que clareava os lençóis, ela se anunciava.”

O olhar mágico e terno sobre os irmãos é outro belo ponto do livro. Há a irmã que mia no lugar do gato mudo, a outra que vive a bordar pontos de cruz, o irmão que mastiga vidro, o outro que partiu sem avisar – “Como pássaro, voou sem desnorteio, sem deixar rastro.” – e a irmã mais nova, criada sem ter conhecido a mãe: “Crescia sem raízes. Desprendia-se fácil do chão.”

Bartolomeu Campos de Queirós. Ainda quero dar um abraço neste homem.

domingo, 22 de maio de 2011

Contos astrais: Os gêmeos


Nivaldo Pereira

Texto publicado no Pioneiro, 2005

Diante do espelho, ele nota uma pequena espinha despontando no canto do nariz. Deve ter sido resultado do gorduroso fish and fries de anteontem. Peixe e batata, tudo frito, no fast-food. Como os ingleses comem mal! Ódio mortal da espinha. Espreme, aperta, cutuca a pele com as unhas. Uma gotinha de sangue aparece. Pronto! Era isso que você queria? Custava esperar? Era a voz do irmão, dentro de sua cabeça. No espelho o vê: seu outro, seu gêmeo. Ficara no Brasil, de braço quebrado. E ele ali, sozinho em Londres, com um mês para explorar as referências tantas dessa cidade que conhecera nos livros, nos filmes, nas bandas dos anos 60, 70, 80. West End, Piccadilly Circus, Oxford Street, Hyde Park. Sai do quarto minúsculo, deixa a chave na portaria e ganha o mundo, dispensando o breakfast econômico.

Poucas coisas nessa vida lhe dão tanta satisfação quanto flanar pelas ruas, mais ainda se forem ruas inéditas de seus passos, mais ainda se forem ruas míticas, por onde teriam caminhado Miss Dalloway, Oliver Twist, Agatha Christie, Oscar Wilde, Morrissey, Mick Jagger e Paul McCartney. Hoje decidira não traçar roteiros. Entraria no metrô e desceria somente onde percebesse na estação algum sinal, algum convite para o inesperado. Era um jogo, gostava disso. Andar e pensar, criar enredos, imaginar, falsear o real até ele virar colorida ficção. Pisa nas escadas rolantes de Gloucester Road, posicionado-se do lado direito. Ingleses têm pressa: a esquerda deve ficar livre para os afobados.

O trem chega logo. Cheio àquela hora da manhã, começo de expediente. Um jovem executivo, de paletó e gravata, sentado, abre a valise e dela retira uma banana. Descasca-a e soca-a inteira na boca. Que cena bizarra! O homem põe as cascas num saco plástico e guarda na pasta. Esse cara deve ser muito metódico, a ponto de levar um saco de lixo consigo. Seria um misógino excêntrico? Teria uma identidade oculta? Boca fechada mastigando, bochechas cheias de banana, o outro se percebe vigiado. Ele muda bruscamente o foco do olhar. Ingleses prezam a indiferença. Estação Notting Hill Gate chegando. Lembra do filme com Hugh Grant e Julia Roberts. Cantarola baixinho a canção do Charles Aznavour: She may be the beauty or the beast... Impulso de descer. Será que hoje é dia daquela feira? Mas permanece no metrô.

Debaixo de seu olhar, no banco, uma mulher de meia idade e cabelo azul lê um livro. Curiosidade aguçada, tenta espiar a capa. Olha só: é Budapest, tradução do romance do Chico Buarque. Ele tem ganas de se revelar brasileiro, dizer-se fã ardoroso do Chico. Mas segura a onda. Nada de intimidades ali: a dama inglesa não haveria de gostar. Estação Paddington se aproxima. Lady Agatha falava dessa estação em seus livros. Trens pontuais, crimes exatos. Desceria aqui? Espia o povo na plataforma de embarque. E súbito, num vislumbre, vê a si mesmo lá fora. O irmão gêmeo! O mesmo braço esquerdo quebrado, a roupa conhecida. É ele sim! Coração pulando, sorry, sorry, excuse me, empurra as pessoas até ficar na porta do vagão, esperando o parar do trem. Sai em carreira desabalada.

Como seria possível? O outro desistira da viagem por causa do acidente de bicicleta, braço engessado, três meses de espera. Falara com ele por telefone há dois dias, estava lá, em casa. Curte por mim, vai na Baker Street ver o Sherlock Holmes, dissera até. Uma surpresa? Então era isso? Corre até o lugar onde vira o irmão na plataforma oposta. Não havia como passar para o outro lado! Pensa até em descer pelo fosso dos trilhos. Não! Tempos estranhos: atitudes suspeitas são perigosas, clima de terror no subway londrino. Então sobe as escadas até chegar na avenida lá em cima. Entra numa cabine telefônica vermelha. Liga a cobrar para casa. Ninguém atende. Na casa da irmã: nada. Cadê todo mundo? Como saber se o louco do Hermes entrou de repente num avião e veio para Londres de braço quebrado e tudo?

Tec-tec-tec-tec. Que tormento digitar com uma mão só! Uma lauda de texto e já está cansado. Mas continuaria sua história. No porta-retrato ao lado do computador, em cuja foto ele e o irmão aparecem rindo, idênticos, está afixado o postal que recebera de Londres. Estação Paddington. No espelho da porta do armário vê a espinha crescendo embaixo do nariz. O irmão adora espremer cravos e espinhas e, se estivesse ali, não deixaria por menos. Volta os olhos para o texto. Escrever era o único jeito de viajar sem sair do lugar: brincando na linguagem, na imaginação e nas possibilidades de ser um outro. Afinal, era chamado de Hermes, nome de um deus moleque e mentiroso, com asas nos pés. Mas e agora, ó Hermes, divino trapaceiro? Como resolver a situação que inventara, aparecendo de improviso na viagem do irmão?

Ah!, com gêmeos é assim mesmo: quando se pensa que é um, pode ser o outro. Ele examina o mapa do metrô de Londres. Próxima estação: Baker Street. Tec-tec-tec-tec. Literatura não precisa de lógica. Não é, meu caro Watson?

Tiquetaque, tiquetaque


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 20.05.2011

Atacou-me a tal tendinite, este mal da era dos computadores. Dores na mão direita, dedão, punho. Além do desconforto na digitação, cumprimentar alguém tem me feito ver estrelas, e até galáxias, se o aperto de mão da pessoa for muito forte. Depois de médicos, exames, diagnóstico, começo sessões de fisioterapia. E começo também a ter uma percepção surpreendente do tempo, pelo contato comigo mesmo e com outras pessoas em tratamento.

Logo no primeiro dia, divido a cabine dos estímulos elétricos com um simpático senhor, ele a curar o ombro esquerdo. Pergunto-lhe quantas sessões já fez. Umas 140, diz ele, gargalhando. Eu ri também. Bom humor me conquista sempre. Aí vem um silêncio, o tiquetaque do relógio marcando os minutos programados, e o homem traduz meu pensamento, falando de como o tempo passa devagar ali. A vida louca lá fora, a ansiedade na cabeça, e o tempo lento, lento em cada minuto de espera. Primeira sessão, primeira questão: o que eu tenho feito da necessária quietude, da paciência?

Dia seguinte, entre fios, conheço um rapaz bem falante, tratando da região lombar. Caminhoneiro acostumado a pegar pesos, teve que parar tudo, atormentado por dores cruéis. Ele reconhece que precisa de outro trabalho, mas está acostumado ao que tem, sempre fez isso. Eu argumento que ele está recebendo um aviso urgente do corpo e que não pode brincar com a saúde. Ele admite, fala de idéias de trabalho, mas não agora, quem sabe adiante. Finda a sessão dele, eu fico ao sabor dos ponteiros. E visto a carapuça: ando judiando da mão, na firmeza autoritária com que seguro as rédeas da vida. Há que dizer nãos, afrouxar, soltar.

No terceiro dia, sozinho na cabine, tento traduzir a fala do tiquetaque, em meditação forçada. Devagar, devagar: parece dizer o relógio. Ainda há sessões a fazer – e eu sem poder seguir a freqüência devida. Tiquetaque, tiquetaque. Medo de ti, ó Cronos, deus do tempo, severo professor. Sejas tu camarada, sejas leve em teus decretos de limites. Prometo aprender a lição dos tempos, na paciência da cura. Mas de ti apenas escuto: tiquetaque, tiquetaque...

domingo, 15 de maio de 2011

Desce?


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 03/09/2005

A porta já ia se fechando quando entra uma mulher com um menino de uns quatro anos. Desce? Digo que sim. O guri se apressa em ficar na ponta dos pés para tocar o botão que sinaliza o térreo, mas a mãe o impede: “não, o tio já apertou”. Ele quer mesmo assim, ela não deixa, e o pestinha me olha com raiva, como fosse eu o culpado de ter tirado dele o gostinho de manipular os comandos dessa máquina de subir e descer com gente dentro. Num andar abaixo, um homem entra, pergunta se desce e, ignorando a nossa afirmativa, encosta o dedão com tudo na tecla P. O menino se revolta e grita: “eu também quero, também quero”. E o jeito foi deixar ele pôr o dedinho no P.

Dei toda razão ao guri. Os grandões adultos ignoram os semelhantes, e ele é que tem que respeitar? A birra do moleque foi a minha própria birra reprimida diante dessa ocorrência comum nos edifícios. Eu sempre sinto uma raiva infantil quando me perguntam se o elevador desce, eu afirmo, mas a criatura mesmo assim aperta o P. Se não confia em mim, então por que perguntou, diabo? Só para me desmoralizar? Isso acontece sempre, e eu juro que da próxima não responderei nada ou então que vou ficar com a mãozona em cima dos botões, para evitar que os desconfiados teclem no P que eu já apertei. O risco é acharem que sou um ascensorista...

Elevadores são como caixinhas de ressonância do comportamento, laboratórios perfeitos para observações curiosas das relações humanas. Se eu fosse fazer um verbete de dicionário para esse substantivo, escreveria assim: caixa retangular empregada para ascender e descender de edificações e dentro da qual os usuários experimentam diversos níveis de emoções por compartilhar tão diminuto espaço com os semelhantes. Já prestou atenção, por exemplo, como as pessoas se desconcertam sem saberem para onde olhar? O espaço é muito pequeno, e há uma regra silenciosa que diz que é feio ficar encarando os outros, ainda mais gente que você não conhece. O jeito é esticar o pescoço e mirar o teto do elevador, mesmo sabendo que não há nada de interessante lá para ser conferido. Você fica com cara de idiota, tenso, encostado na parede, como se estivesse à espera da agulha de uma injeção.

Mas se interessante mesmo for a pessoa do lado, aí o olhar vai dar voltas enganosas no exíguo cubículo, disfarçando até poder dar uma espiada de efeito no que se quer avaliar. Quando o elevador tem espelho, chega a ser engraçado. Os vaidosos declarados já entram e vão direto arrumar o cabelo ou, no caso das mulheres, conferir se tem batom nos dentes. Já os enrustidos fingem que nem enxergaram o espelho, mas pode apostar que eles darão em jeitinho de terem um vislumbre rápido da própria fachada, apelando para aquela olhada para cima e, depois, sem querer querendo, lançar um diretaço no espelho.

Outra questão séria da convivência nesses espaços vem do olfato. Nem vou explorar muito o extremo do terrorismo com arma química que é um sujeito aproveitar a viagem para regular a pressão gasosa do corpo. Já me aconteceu de entrar no elevador vazio e encontrar a essência fétida lá, deixada por outro, aí entra alguém depois e me olha com asco, como se o culpado fosse eu. E há também os perfumes fortes. Que igualmente ficam lá, impregnados, marcando a presença de quem já saiu. E há ainda aqueles que aproveitam as horas de pouco movimento, geralmente de noite, para descer ou subir fumando no elevador. Uma gentalha sem compostura!

Aliás, quando a questão é terrorismo, o elevador é o lugar perfeito. Os ataques vão desde aquela apertada em todos os botões ao sair (ato somente aceitável entre menores de cinco anos) até segurar a porta no andar, esperando alguém e atrasando o fluxo da máquina. Pelo menos tem as conversas que a gente escuta – cada história insólita!, cada fofoca! – e a diversão de espiar a cara constrangida de quem não vê a hora de sair dali por não suportar conviver num espaço tão pequeno. E quando falta energia e ele pára? Vou preferir não entrar nesse tema, para não atraí-lo. Afinal, sou usuário...

domingo, 8 de maio de 2011

Um taurino

Se é para escolher um taurino, eu fico com Dorival Caymmi. Doce, sereno, sensorial, firme e malemolente, Caymmi construiu uma obra pautada no simples, nas coisas da terra e das gentes. Suas canções parecem ter saído do folclore, de tão puras na forma, de tão gostosas e exatas. Quem mais deu em canção receita de vatapá, no molejo da nega que sabe mexer? Quem mais fez a gente sentir o vento fazendo cantiga nas folhas do coqueiral? Nascido em Salvador, a 30 de abril de 1914, ele reiventou a Bahia com sua arte múltipla. Esse filho da Vênus taurina compunha, cantava, tocava, pintava e amava. Tanta fecundidade de Touro gerou filhos artistas e talentosos, como a também taurina Nana Caymmi, outro colosso do signo da garganta, signo da voz. Se o mar, quebrando na praia, é bonito, é bonito, Caymmi cantando o mar é presente de Deus. Confira.

Magia do mar


Nivaldo Pereira
Crõnica publicada no Pioneiro, 06/05/2011

Quando o cinema se fez corpo, na passagem do transatlântico todo iluminado, realidade e fantasia se fundiram de vez. O lugar para isso não poderia ser mais mágico: a mansa Baía de Todos os Santos, em frente à prainha onde há séculos Tomé de Souza aportou com sua comitiva para fundar a cidade do Salvador. Antes mesmo do nosso encalhe, eu já experimentava uma mescla de níveis de percepção entre o presente, o passado histórico e a minha própria memória, ao sabor dos reflexos da luz do Farol da Barra nas águas escuras da noite recente. Mas, embora este seja um relato impressionista, deve ter um início.

E tudo começa de tardezinha, com nosso embarque na lancha pilotada pelo Chico, meu cunhado. Nós, uns poucos amigos, nos abastecemos de cervejas e salgadinhos e fomos apreciar do mar o nunca repetido espetáculo do poente. A âncora foi baixada em local estratégico, defronte à mítica praia do Porto da Barra, onde até hoje malucos e poetas aplaudem o pôr-do-sol.

O Chico cuidou de respeitar o limite determinado pela guarda costeira para o trânsito de barcos, e lá ficamos, à flor d’água, inebriados de luz e mar. Eu nunca tinha visto a cidade daquela perspectiva: os coqueiros ao redor da Igreja de Santo Antônio, o Forte de Santa Maria, o Farol, os banhistas indiferentes ao cair da noite. Ah, era véspera do Dia de Iemanjá, senhora daquelas águas.

Sol se foi, noite veio, a gente ali, sem querer mais sair, mas chegou a hora de voltar. Lancha ligada, âncora acionada para subir – e nada. Algo nos prendia, embaixo d’água. O Chico girava o leme, e nada de a lancha sair do lugar. Descoberta: a âncora esta enroscada em algum cabo submarino! Estávamos encalhados!

Se é verdade que o tempo na Bahia flui em outro ritmo, cuidamos de sossegar, enquanto o piloto acionava o pessoal da marina. Logo viria um mergulhador, negro filho de Netuno, para nos libertar daquela doce prisão. E foi nessa espera que passou o transatlântico iluminado, ali perto. Delírio! Amarcord de Fellini! Uma bênção!

Dia seguinte, despejei seiva de alfazema no mar, na Festa de Iemanjá. Gratidão pelo presente da véspera.