Terceira Casa?

No mapa astral, a Terceira Casa é o setor das comunicações e expressões,
textos, falas e pensamentos. Sobre o quê? Sobre si mesmo, sobre o mundo ao
redor, sobre tudo. É isso aqui.







quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A dupla face de Janus



Portal de tempo: de um dia para o outro, rápido assim, muda o ano. Somos tomados pela energia do futuro. É a transição entre o velho e o novo. Trata-se de uma convenção cultural, é claro, e não vale para todos os povos na mesma data. Mas a experiência de limiar, esta sim, é universal. Por isso os antigos romanos criaram uma divindade para presidir tais passagens. Era Janus, o deus das portas e janelas, com sua dupla face: uma que olhava para frente e outra que fitava o passado. E nosso herdado calendário começa louvando Janus, com o mês de janeiro, porta de um novo ciclo coletivo.

Somos todos movidos a quereres, assim é a vida. A arte de cada pessoa é saber conciliar desejo e capacidade de realização. Porque nem tudo é nossa vontade. E quase sempre, na mala do futuro, deve haver um espaço generoso para o passado. Assim segue o baile. E dançá-lo com aceitação e alegria faz toda diferença.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Capricorn Festival

Dizem que o rock, filho do blues, é regido por Saturno, que gosta de pedras e também rege o signo de Capricórnio e a cor preta. Por isso, invento aqui o Capricorn Festival, reunindo três capricornianos da pesada, autoridades em suas áreas, como é comum neste signo: Elvis Presley, Janis Joplin e Luiz Melodia. Ah, eu amo os três, é claro.

Elvis, nascido a 8 de janeiro de 1935, é o eterno Rei do Rock. Foi pedra fundamental na disseminação do ritmo que inventou a juventude e mudou a história do mundo. Foi o branco que, na hora certa, catalizou o movimento do ritmo da alma negra e o espalhou. E as pedras rolaram, e seguem rolando.




Janis Joplin nasceu a 19 de janeiro de 1943. Outra branca de feeling negro, de alma blues. A voz rascante e visceral, em pouco mais de 3 anos de uma carreira abreviada por sua morte em 1970, virou marco imbatível de intensidade. A emoção em Capricórnio é assim, cortante, pedra afiada, feito o canto negro de Janis.




Do alto do morro carioca, o negro gato Luiz Melodia, nascido a 7 de janeiro de 1951, misturou o balanço do samba brasileiro com as tintas do blues e do rock americanos. É uma jóia do nosso bom som, uma pérola negra da MPB. Na poesia dura e contida dos capricornianos (vide a obra em pedra do capricorniano João Cabral de Melo Neto), Melodia é rocha lapidada, exata.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Presépio


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 26/12/2010

Seu José é um burro legítimo, na capacidade de carregar a vida no lombo. Trabalhador honesto e incansável, sustenta com firmeza e responsabilidade a condição de provedor do lar. Seu José é doce, nunca reclama, de tudo extrai contentamento, jamais afrouxa o passo. Quem o vê assim, delicadamente se fazendo de burrinho com o neto nas costas, não imagina a força e a garra desse homem.

Dona Maria é feito uma vaca, no que esse animal carrega de sagrado, o sagrado de quem sacraliza cada ação cotidiana. Dona Maria tem mil utilidades. Com devoção, limpa, lava, passa, cozinha, labuta, zela, ensina, sem sossego até no sonhar uma vida melhor para os seus. No peito dela mamaram muitos filhos, no coração dela habitam esses e outros mais, milhares. Quem a vê assim, dando a mamadeira ao neto, não pode conceber a tenacidade de sua fibra.

João, Pedro e Sara são como ovelhas. Humildes e anônimos, formam uma roda gigantesca na engrenagem dos dias, com seus labores e suores. Nessa roda, os esforços conjuntos movem cidades e países, no afã de uma merecida recompensa. Na outra roda, a dos quereres, João quer, mas não tem; Pedro tinha, e perdeu; Sara espera chegar. Não estão sós. E o que querem não é só para si. Quem os percebe como desanimados, pelo desgaste da faina diária, não pode saber do vigor dos seus secretos desejos.

Pois hoje Seu José teve uma visão. Dona Maria, um anseio na alma. Sara, Pedro e João consultaram uns magos. Vieram sinais de estrelas e meninos. Seu José pensa em abrir uma marcenaria para passar sua arte aos meninos de rua. Dona Maria sente ganas de cuidar de outros filhos, quem sabe ensinar às pobres mulheres o que aprendeu sobre o uso da comida. João vê na mágica estrela sua viagem dos sonhos; Pedro, a luz de uma nova casa, e Sara, a semente radiosa de outro ser, em seu ventre.

É gente simples, na rotina de abençoados animais domésticos. Mas que, quando tocada pela estrela peregrina que percorre os corações humanos, renasce em esperança, fé e boa vontade. E todo dia é santo, toda noite é feliz. Enquanto milagres pipocam aqui e acolá, de Belém Novo a Belém do Pará.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Meninos numa tarde de verão


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 24/12/2005

Na calçada disputada pelos pedestres apressados, a mãe índia, sentada, dá o seio ao filho pequeno. Do outro lado da esteira estendida, sobre a qual estão espalhadas pequenas peças artesanais coloridas e rústicas, um outro filho da índia cuida de mostrar aos passantes as novidades. É um curumim moreno e rechonchudo, de uns quatro anos de idade, com o rosto marcado pelos traços de seu povo. Ele exibe a uma mulher loura o apelo da temporada: um sino feito de vime trançado, ao modo dos cestos típicos, com uma bola vermelha natalina à guisa de badalo e um laço de camurça também vermelho na base da alça. O menino sacode a peça, como a reafirmar sua função alvissareira, mas o sino pequenino não bate. Ouve-se apenas um leve som abafado, da bolinha contra o vime, naquele sino que não dobra por quem o criou. O curumim insiste em chacoalhar o enfeite aos transeuntes da tarde quente. Som tímido, surdo. Badalo inútil, de música pobre.

Perto dali, enquanto avança a tarde do verão recém-instalado, um homem velho, num banco de praça, apresenta à roda humana que o envolve um instrumento musical. É uma cítara, da qual ele extrai as notas de uma antiga canção natalina. O ambulante de ocasião vai facilmente tocando em cima das bolinhas pretas da partitura inserida sob as cordas de aço da cítara. Um menino se aproxima do vendedor, indicando que também quer tocar um pouco. O homem o ajuda, guiando os dedinhos miúdos por cima das marcas pretas do papel. Ba-te o si-no pe-que-ni-no, si-no de Be-lém... Quando reconhece os acordes da canção, os olhos do guri se iluminam, e ele espia a mãe e os outros, sorriso aberto ao infinito. Confere os próprios dedos, como se os descobrisse tomados de alguma magia. A mãe pergunta o preço do instrumento. Muito caro! O velho faz abatimento. Ainda não dá. Fica para outra vez. E a mulher sai da roda levando o filho pela mão. No semblante infantil, apenas uma nota vazia. Um travo de desilusão, talvez o primeiro da vida.

O som da cítara mistura-se ao barulho do chafariz ligado na praça. O experiente fotógrafo posiciona-se para mais um clique. Espera a mulher jovem convencer o filho pequeno a ficar sozinho no trenó do Papai Noel construído em fibra. Mas a criança abre um berreiro. Não quer estar ali. A mãe tenta de todo jeito. Promete sentar junto. É só uma foto, uma só para mostrar ao papai, uma só, rapidinho. Nada. O menino não gosta do enorme boneco do velhinho de vermelho e nem das renas do trenó. Chora convulsivamente. A mulher se desculpa ao fotógrafo. Não vai ficar boa uma foto assim, aos prantos. Nisso, a buzina estridente do carrinho do sorveteiro se faz ouvir. A mãe aponta a guloseima e negocia com o filho. Se ele ficar quietinho para a foto, ganha um sorvete. Duas bolas na casquinha. Sorvete delicioso, olha ali na mão da menininha, e ela nem chora. Quem chora fica feio. E finalmente o fotógrafo mambembe enquadra no visor da máquina o trenó, a mãe e o menininho agora quase feliz, segurando seu sorvete de duas bolas.

O mesmo sol ainda mostra-se vigoroso em calor e luz quando o sino da igreja marca seis horas. Os acordes da Ave-Maria espalham-se pelo entorno urbano, ferindo os ouvidos de dois meninos maltrapilhos, sentados no chão. Não têm dez anos ainda. Um deles segura um saco plástico de encontro ao nariz e à boca, resfolegando repetidamente. O outro tem os olhos revirados, viajando por invisíveis territórios, certamente mais luminosos do que o desse céu cujo azul fere as retinas opacas. Logo estão a pedir trocados aos passantes, sem sequer balbuciar direito as palavras. Nessa hora, não sabem quem são, não têm nome, nem pai, nem mãe. São meras crianças da tarde de verão, sem passado, sem futuro. Um deles deita-se no chão e volta a aspirar o conteúdo do saco plástico. E fica assim: olhar parado no infinito, acompanhando atentamente a viagem de um menino feito ele, que desce do céu num carro de sol. Todo dourado, o menino que vem do céu acena. Ele cutuca o coleguinha. Veja, olha, veja lá. Mas o outro está distraído com algumas crianças vestidas de anjo, que entram na igreja para o coro da missa festiva. O sino volta a badalar. A tarde ainda é firme, mas nela se propagam pelo alto-falante da igreja lindas vozes infantis cantando a chegada de uma certa noite feliz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Festa de cores e frutas


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 17/12/2010

Ah, verão, estação do sol no portal de dezembro. A luz incide forte sobre o Hemisfério Sul. A temperatura sobe, as cores ganham matizes brilhantes, únicos. Tudo parece conspirar para um apogeu de manifestação, numa intensidade que envolve corpos e almas. As cores do verão gritam aos sentidos, em qualquer canto, em toda esquina. É a estação das frutas e, talvez por isso, de sugestão a todo tipo de desfrute.

Do Nordeste, vem de imediato a memória dos suculentos cajus, vermelhos alguns, ou amarelos como cajás, sirigüelas e mangas, estas se repartindo também em embalagens verdes, rosadas ou mistas. É farra de dentes nas polpas, extraindo sumos; bocas se investigando e se descobrindo em áreas de doce e azedo, na regência de línguas bailarinas e incansáveis. Verão é festa nas bocas.

No Sul, as frutas são outras, mas as cores igualmente se exibem em trajes festivos. Amarelo, o pêssego é promessa de alegria. Exposto nas fruteiras, espalha gratuitamente pelas calçadas seu odor peculiar, numa arenga que confirma a chegada do verão. Quando o dourado de sua membrana, em sutil camurça, se traduz também no ouro do mel de seu gosto, a boca que o morde experimenta o gozo da vida. Sem complicações, viver é bom porque existe pêssego.

E há os tons de rubro, a se estender do bordô ao rosado das uvas, quando não verdes. Uvas brilham feito pérolas vivas, cientes, quem sabe, de seu teor mítico. Uvas parecem saber da promessa do vinho, licor de êxtase e delírio, verões de vindimas e venturas. Sim, é sublime ventura disputar um cacho com tontas abelhas, no afã de um néctar que as atrai até aos supermercados. Toda natureza fica meio louca sob o sol a pino.

Faz calor. Eis que farta da quase roxa ameixa, a boca gulosa fica atrevida: quer então deixar roxa a pele dos pescoços, quer invadir outras bocas, repartir sumos. As línguas não se bastam: querem outras, querem todas. Os corpos vibram em cor, calor, sabor. Exibem-se, exalam-se. No desfrute do verão, cada corpo vira uma fruta colorida. Festa do sol, festa da vida, no apelo mágico sobre gente, bicho, fruta. Delícia do viver.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Contos astrais: Sagitário


Nivaldo Pereira

Diante da portinhola da cabine de madeira antiga, ela sentou e, com um pigarro, anunciou sua presença.
“Padre, eu queria falar com o senhor. É uma coisa que eu nunca contei a ninguém...”
“Abra seu coração, minha filha. Não há falta que Deus não possa perdoar, se há arrependimento.”
“A história é meio longa. Vou começar do começo. Um ano atrás, conheci um homem e me apaixonei na hora. Foi na fazenda de uma amiga minha. O pai dela cria cavalos de raça, tem um haras e tudo. Esse homem apareceu suado, montado num puro-sangue marrom. Lindos, ele e o cavalo. Abriu um sorriso enorme pra mim, assim, de simpatia natural, e acenou. No ato me lembrei do Capitão Rodrigo Cambará, do Erico Verissimo. Era o mesmo jeito conquistador e folgazão. Eu fiquei hipnotizada. Fui seguindo ele com o olhar, ele se misturando aos outros jóqueis da fazenda. De onde eu estava dava pra escutar a gargalhada dele, esbanjando alegria. Fiquei ainda mais louca quando ele desceu do cavalo e exibiu um par de coxas maravilhosas na malha branca da calça de montaria.”
“Não precisa entrar em detalhes, minha filha...”
“Desculpe, padre. Sou muito direta e esqueço que as pessoas têm pudores. Pois bem. Depois do almoço, os outros da casa tinham ido pra sala jogar cartas, e eu, com uns uísques na cabeça, pedi a ele pra me ensinar a cavalgar. Nessa altura já tinha rolado o maior clima entre a gente. Ele foi na garupa do cavalo, me ensinando a pressão certa da rédea. Não quero constranger o senhor, mas naquela tarde eu tive a mais intensa experiência de amor, no meio do bosque da fazenda. Combinamos em tudo, até nos excessos. Ele contou que era casado, mas que ia se separar da mulher, uma advogada muito ciumenta, que usava o filho deles como desculpa para mantê-lo preso num casamento de fachada. Desde então a gente não passou mais de dois dias sem se ver. Ficou claro que a gente nasceu um para o outro. Só que eu comecei a me cansar de ser a outra, do medo dele de ser descoberto comigo. Não sou ciumenta, padre. Também adoro liberdade e viveria muito bem com ele assim, cada um na sua casa. Mas ficava furiosa com as coisas que ele contava da mulher. Tudo bem, ele também se mostrou meio frouxo em aturar passivamente os desmandos daquela bisca medonha. Eu temia dar uma prensa nele, do tipo ou ela ou eu, e passar uma imagem de dominadora. Foi aí que eu decidi tomar umas providências. E descobri a escola em que o filho deles estudava.”
“Deus pai! O que você fez, filha?”
“Não se apavore, padre. Eu mesma, diretamente, não fiz nada. Já conheço bem o meu homem. Meu centauro é muito doce, muito desligado de tudo, só pensa em campeonatos aqui e no exterior e em virar treinador de jóqueis. Sei também que ele só reage quando tem o orgulho ferido, quando se sente enganado. Pra acabar de vez aquele casamento, só se ele descobrisse que a mulher o traía. Segui ela umas vezes, da saída do fórum, da saída do escritório. E nada que desse pinta de algum caso. Então eu pensei em criar um lance comprometedor pra ela. Eu tenho um amigo, um ex-namorado, que não tem encanações com falcatruas. Ofereci uma grana boa pra ele fazer um servicinho mole-mole, em duas etapas. Descobri os dias em que a mulher pegava o menino no colégio e os dias em que era o pai que ia lá... Está ouvindo, padre?”
“Sim, pode continuar.”
“Achei que o senhor estivesse cochilando. Meu amigo passou na saída da escola e pediu ao menino que entregasse à mãe uma caixa de bombons. Ele disse ao guri que era namorado dela, mas que o pai dele não poderia saber. Na outra semana, meu amigo voltou lá, no dia em que o pai iria buscar o filho, e deu ao pestinha um presente, um binóculo, que me custou uma fortuna, com o pretexto de que precisavam se tornar amigos. Logicamente o pai iria querer saber de tudo e a bomba explodiria. Sei que ele quando encasqueta com uma coisa, fica surdo e cego, cabeça dura total. E deu tudo certo, padre. Estamos vivendo juntos há dois meses, muito felizes. A separação corre no litigioso, porque ele não quer ver a ex-mulher nem pintada.”
“Mas você está arrependida do que fez...”
“De jeito nenhum. Foi o único jeito de ele terminar de vez o que já estava acabado. Só assim ele viu a megera com quem tinha se casado. Fiz um favor enorme pra ele e pra nossa felicidade.”
“Minha filha, o que você fez não foi certo.”
“E o que é certo, padre? Viver infeliz? Ele viver preso a um casamento falido? Eu ficar longe de quem amo porque outra mulher manipula meu homem?”
“Você também manipulou, mentiu. Quando ele descobrir, vai te abandonar.”
“Só se o senhor contar. Mas segredo de confissão é sagrado, não é padre?”
O padre ficou mudo, de olhos arregalados. E ela explodiu numa gargalhada:
“Desculpa, padre. Sua cara de pânico me cortou o coração. É tudo mentira. Eu sou atéia, Odeio padre, odeio igreja, e tinha essa fantasia de inventar uma história de falta de ética que deixasse um padre sem ter o que dizer no confessionário. Mas o senhor me perdoa, não? Dar a outra face é cristão, não é, padre? O senhor me perdoa de coração, padre? Ou, na real, tem vontade de me dar um coice violento e me expulsar daqui?”

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Caminhos de um mito


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 10/12/2010

Baita surpresa! Um livro recém-lido mostrou-me conexão entre uma brincadeira da minha infância e o imaginário dos italianos que povoaram Caxias do Sul. Não sei se a tradição ainda é forte, mas, na festas populares do interior da Bahia, sempre tinha o pau-de-sebo. Um vigoroso mastro era untado de cima a baixo com sebo de boi ou graxa; no topo eram dependuradas cédulas, garrafas de cachaça e caixinhas com doces, e enfim o mastro escorregadio era enterrado no chão, para que a molecada se atrevesse a buscar os prêmios lá no alto.

A hora do pau-de-sebo era uma farra coletiva. Os atrevidos tiravam a camisa e tentavam subir no mastro, feito macacos. Nada. Desciam deslizando de barriga e com a pele literalmente sebenta, para algazarra geral. Até que, depois de tantas tentativas, o sebo ia sumindo e um felizardo garantia a grana, repartindo a cachaça e os doces com os demais. Não, eu nunca tentei subir: para mim, não há dinheiro que compense a nojenta sensação de corpo grudento...

Ao ler Herois e Maravilhas da Idade Média, do historiador francês Jacques Le Goff, descobri que o pau-de-sebo tem relação com o mito da Cocanha. Isso mesmo, o mito do país encantado em que corre um rio de vinho e gansos gordos são assados sozinhos nas ruas, entre iguarias sem fim caídas do céu, além de uma fonte da juventude. É o mesmo mito, presente no imaginário europeu desde o período medieval, que fez aumentar a sedução da América como lugar de fartura e felicidade junto aos italianos que chegaram ao Brasil a partir de 1875.

Le Goff situa a gênese do mito num manuscrito anônimo de 1250. Sua permanência no imaginário medieval deveu-se também à literatura. “O país de Cocanha teve a sorte de ser retomado por Bocaccio no Decamerão”, afirma o historiador. A partir do século XVIII, essa utopia virou brincadeira de criança “nas comunidades rurais e camponesas, dando nome a um elemento de festa popular, o mastro de cocanha.” Descrição semelhante à do pau-de-sebo aparece numa crônica parisiense de 1425, falando do “mastro de cocanha”.

Que beleza: mitos correm mundos no imaginário dos homens!

Um sagitariano

Como um cavalo que carregou a cultura de seu povo e a projetou com devoção e alegria para o mundo, Luiz Gonzaga (1912-1989) foi um positivo sagitariano, nascido a 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Depois de Gonzagão, o Nordeste já não seria sinônimo apenas de seca, miséria e abandono. Ele trouxe a alegria da festa, definindo o baião e fazendo o Brasil dançar; trouxe a fé e o entusiamo pela vida, com seu humor contagiante, e trouxe um novo olhar, gentil e generoso, para as riquezas ocultas de um Brasil iletrado, mas sábio. De manestrel caboclo, virou guru, virou Lua, virou santo. E eu sou devoto.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Balada de dezembro



Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 03/12/2010

Parece dezembro. O mês pouco importa, mas esse triângulo verde no fundo da foto tem todo jeito de árvore de Natal. É que fotografias desbotam feito a memória da gente, baby, e os detalhes vão ficando assim, embaçados, convidando a imaginações. Ou a delírios. Mas o bom é que nosso sorriso está quase nítido. Parecemos felizes, verdadeiramente felizes. Engraçado: de súbito, uma canção me arrebata. Como no bolero de Tom e Chico, sinto ganas de te ligar e deixar confusões no gravador. Se eu tivesse teu número, é claro.

Guardo a fotografia na velha caixa, mas a canção permanece soando na cabeça. Still Loving You, do Scorpions. Cantávamos em dueto, imitando o tom nasal do Klaus Meine e rindo juntos da nossa pouca, ou nenhuma, extensão vocal. Sabíamos de cor a letra. Talvez eu ainda lembre. Time, it needs time / To win back your love again / I will be there, I will be there...

Tantas baladas curtidas num tempo em que fumaça de cigarro era puro charme. Agora que o fumo escancara a face assassina, baladas saíram de moda. Mesmo assim, ponho a rodar o disco do Scorpions, não mais aquele vinil – uma coletânea em CD. E para umedecer de rubro a sessão, uma dose de Campari com gelo. Ai, coisa mais retrô!

Parece bolero. Te quero? Te quero? Fim de ano tem dessas coisas. A gente vai ficando, a la Drummond, comovido como o diabo. Aí, na busca de algum documento num fundo de armário, uma velha caixa expõe fragmentos do que o coração pensou ter esquecido. E bate outra vez, com esperança de reviver, o remoído repertório de paixões. Outro lampejo: nosso antigo sonho de conhecer Berlim. Sonhos alemães, Nina Hagen, Fassbinder, Wim Wenders, asas de nossos desejos. Mas havia o muro, havia nossos tantos muros. Não deu.

Love at First Sting. Amor à primeira ferroada, era esse o vinil do Scorpions. Gostávamos de ferrões, densidades e sombras, jaquetas pretas, noites insones. Éramos darks, baby, remember? Era 1985. Hoje, deixo o sol de dezembro arrombar as vidraças da sala. A balada continua linda. Mas... Não me tocou. Pareceria bolero, dizer assim, que não quero teus beijos nunca mais?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ainda a bandeira


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 26/11/2010

Vou seguir refletindo sobre a bandeira nacional. É o símbolo maior de nosso Brasil, um país que precisa ser descoberto para ser aceito, para ser amado. Não podemos sentir a tal brasilidade e nos comover com a bandeira somente “nos momentos de festa e de dor”, como diz o hino. Ou seja, quando a bandeira encobrir o ataúde de algum ídolo das massas, feito Ayrton Senna, ou quando o capitão da seleção brasileira levantar a taça da vitória na Copa do Mundo. Precisamos ser brasileiros principalmente na hora de reconhecer nossos erros, sem deformados orgulhos. E não é que um traço arrogante também está na bandeira? Querem ver?

Quando foi oficializada a atual bandeira, a 19 de novembro de 1889, um destaque foi a representação, no círculo azul, do céu visto no Rio de Janeiro às 8h30min do anterior dia 15, quando foi proclamada a República. Ali estão estrelas de constelações como Cão Maior, Virgem e Escorpião, além do Cruzeiro do Sul. Tudo lindo e poético, não fosse por um detalhe: o céu aparece desenhado não na nossa perspectiva, mas ao contrário, como se visto num espelho ou como se a bandeira estivesse pelo avesso.

Não se sabe de quem foi o erro. O que se sabe é que ele nunca foi corrigido. Em 1971, durante o regime militar, uma lei que dispunha sobre os símbolos nacionais explicava que as constelações “devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste”. Mas quem seria esse observador? Algum ET, em outra galáxia? Ou Deus, no infinito? Não seria mais sensato corrigir o erro secular e termos na bandeira um céu como o vemos do Brasil?

Pois é, está simbolizado no pavilhão nacional o que chamei de traço arrogante do brasileiro. Inventamos desculpas, fazemos arranjos e nos defendemos, para não assumir os próprios erros. E ainda temos a cara-de-pau de dizer que somos humildes! Algum místico pode pensar que, enquanto não corrigirem o céu da bandeira, teremos essa visão invertida, ou distorcida, de nós mesmos. Eu prefiro dizer que precisamos nos aceitar como somos, com aleijões morais e tudo. Sem essa condição, não mudamos. Nada muda.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bandeira sem amor


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 19/11/2010

Na memória, uma aula de Educação Moral e Cívica, na década de 1970. Qual o dia da bandeira? Dezenove de novembro, professora. Agora, quem sabe o nome do poeta que fez a letra do Hino à Bandeira? Olavo Bilac, professora. Isso mesmo. Olhem a beleza desses versos do refrão: “Recebe o afeto que se encerra, / Em nosso peito juvenil, / Querido símbolo da terra, / Da amada terra do Brasil.” Todos aqui amam o Brasil? Siimm. Claro que sim! Naquele tempo, a regra era clara: Brasil, ame-o ou deixe-o.

Ainda os versos de Bilac no hino: “Sobre a imensa Nação Brasileira, / Nos momentos de festa ou de dor, / Para sempre, sagrada bandeira, / Pavilhão da Justiça e do Amor!” Justiça e amor? Tudo bem, falta muito, mas estamos a caminho. Irônico é saber que logo na criação da nossa bandeira foi feita uma injustiça ao amor. A faixa branca ao centro deveria conter o lema positivista: “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim” Frase longa. Abreviaram para “ordem e progresso”, o amor ficou de fora. Por que não “amor, ordem e progresso”?

Talvez não coubesse mesmo o amor no pavilhão de uma nação forjada em modelos autoritários, acostumada a golpes e desmandos dos poucos que, desde a origem, detêm o poder. Nesse padrão, até o amor é imposto: ame o Brasil ou deixe-o. E seguimos cheios de amor clandestino, encerrado em nossos peitos. Amamos de menos o que somos, amamos demais o que não temos. Amamos sem ordem, à margem do progresso. Somos amáveis em demasia: eis nossa delícia e nossa dor.

Corta rápido para Bruxelas, em 2009. Sentado, esperando o trem para Amsterdã, apoiei o mochilão de turista entre as pernas. Em frente, um menino de uns cinco anos passeava, enquanto a mãe falava ao celular. O guri arregalou os olhos, quando percebeu, em minha mochila, uma bandeira brasileira bordada. “Olha, mãe, Brasil, Brasil!”, saiu gritando. Eles eram brasileiros, vivendo na Europa. A mãe não veio ver. Eu e o guri nos olhamos, cúmplices de um afeto difícil de traduzir em nossos peitos juvenis. Naquele breve instante, fomos irmãos. E a grandeza da pátria vibrou em nossos corações.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Da vida das andorinhas


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 25/11/2006

Escutei o chilreio mais perto que nunca, vindo exatamente da minha janela. Eram três passarinhos, que logo identifiquei como andorinhas. Antes que voassem, ariscas, com a minha aproximação, e desenhassem no ar as piruetas espetaculares típicas da espécie, pude me surpreender com o tamanho delas. Tão pequeninas! Foi aí que eu percebi que o máximo de intimidade que eu me permiti ter com as andorinhas tinha sido nas espiadas de debaixo dos fios da rede elétrica, quando elas pousam num espaçamento que lembra notas musicais escritas numa partitura. Sempre tão poéticas, as andorinhas. Fiquei da janela acompanhando os rasantes das três no vão entre edifícios do centro da urbe. Assim, mais de longe, elas pareciam muito maiores, com asas e cauda na forma aerodinâmica que propicia tais evoluções precisas no espaço. Súbito, me veio o estalo: andorinha é bem mais andorinha quando voa.

Deixei a janela, na esperança de que elas voltassem a confiar na segurança do meu parapeito e eu pudesse examiná-las de perto em meu inusitado interesse de ornitólogo de ocasião. Mas qual! Depois de uma meia dúzia de mergulhos no ar da tardinha morna, o trio sumiu no rastro das nuvens primaveris. Não lamentei muito a despedida: eu já tinha sido irrevogavelmente tocado por essas avezinhas, como se tivesse recebido um recado. Faltava decifrar tal mensagem, já elevada à condição de um mágico augúrio, cifrado como convém a comunicações dessa natureza. Na facilidade das enciclopédias virtuais, saí em busca de dados sobre as andorinhas. Soube então que se diferenciam dos demais pássaros pelas adaptações corporais que propiciam a elas a alimentação em pleno vôo. Andorinhas caçam insetos no ar, por isso desenvolveram um corpo fusiforme e asas longas e pontiagudas, além de uma cauda também em ponta. Andorinhas comem enquanto voam. Porque andorinhas foram feitas para voar.

Outra característica delas, e talvez a mais marcante, é a condição de ave migratória. Andorinhas cruzam espaços inimagináveis, de norte a sul do globo terrestre, somente para ciclicamente fugir do frio. Vivem em busca da eterna primavera, e a esta estação anunciam nos dois hemisférios. Essa condição de mensageiras da estação das flores dota as andorinhas de uma simpatia unânime entre os povos da Terra. São sempre bem-vindas, pois avisam que o tempo ameno chegou e que, para alegria dos agricultores, ajudarão a dar conta das nuvens de insetos que a primavera também faz aparecer. Elas fazem seus ninhos em beirais e desvãos, com palha e barro, suficientemente seguros para acomodar os novos filhotes, que estarão prontos para a partida, junto com os pais, tão logo o outono chegue com seu bafejo gelado de inverno iminente. No ano seguinte, lá estarão elas, de volta, fazendo ninhos nas mesmas vizinhanças em que nasceram. É bastante curiosa essa fixação com a origem, em se tratando de aves migratórias que vivem de voar, voar.

Depois de olhar fotografias com diferentes espécies de andorinhas e de examinar as espantosas rotas que elas cruzam em torno do planeta, desliguei o computador e voltei à janela, pela qual o crepúsculo invadia a sala com seus tons de laranja e rosa. Nem sinal daquelas andorinhas que pousaram no parapeito, revelando a mim corpos diminutos e graciosos, mas potentes e ágeis a ponto de garantirem a travessia aérea de um pólo a outro da Terra. Minha pesquisa na rede virtual não garantiu uma elucidação do suposto recado cifrado das três andorinhas em minha janela. Não matei a provável charada da natureza, se é que ela chegou a haver, senão em minha cabeça sedenta de maravilhas. Mas ali, no poente virando noite, quis perseguir o mistério resistente e fiquei a cismar sobre o real. Logo mais o noticiário da televisão anunciaria as coisas importantes: decisões governamentais, escândalos, tragédias humanas e naturais, crimes e a previsão do tempo. Enquanto isso, andorinhas estariam pousadas nas antenas dos telhados, indiferentes a tudo o que não fosse primavera e vida.

Vida de andorinha é tão simplesinha, que o poeta Manuel Bandeira lhe deu voz a dizer que uma andorinha passara o dia à toa, à toa. Se o estar à toa de andorinha é amplificar-se em corpo e alma no ar do vôo, então, meu caro poeta, bom mesmo é a condição de passar a vida à toa, à toa, talvez em busca da primavera que deve ser eterna em sua Pasárgada. Antes que a noite invadisse por completo a sala e eu tivesse que acender as luzes, cuidar da vida e talvez ligar a televisão para saber do real, olhei para o céu do ocaso e disse em pensamento: voa, andorinha, e me ensina que é o vôo que dá grandeza ao homem. Assim, deixei que um eu de mim saísse janela afora e fosse voar, em tamanho aumentado de cauda e asas, por sobre os telhados da cidade. E até agora, esse eu não voltou para casa...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A bênção, Vinicius


Poeta, diplomata, crítico de cinema, jornalista, cantor, compositor, dramaturgo, viajante, boêmio e sedutor inveterado. As muitas facetas de Vinicius de Moraes vão colorir a última edição do ano do projeto Luz do Verbo, que ocorre dia 18 de novembro, quinta-feira, às 20h30min, na Do Arco da Velha Livraria e Café. Com apresentação do poeta Marco de Menezes e do jornalista Nivaldo Pereira, o encontro literário terá as participações dos músicos Camila Cornutti e Dan Ferretti, interpretando canções clássicas de Vinicius. A entrada é franca.

O Poetinha, como era carinhosamente conhecido, nasceu no Rio de Janeiro, em 1913. Aos 20 anos, já lançava seu primeiro livro de poemas, iniciando uma produção fecunda, que duraria até sua morte, em 1980. O lirismo de Vinicius conquistou imensa popularidade, em obras comunicativas presentes até hoje na memória brasileira. No teatro, trouxe a mitologia grega para o morro carioca em Orfeu da Conceição (1956), para logo firmar, com Tom Jobim, uma das mais ricas parcerias da música popular brasileira e, juntos, ajudarem a criar a Bossa Nova.

No requinte poético que trouxe para a MPB, Vinicius foi parceiro de outros grandes nomes como Baden Powell, Ary Barroso, Pixinguinha, Adoniran Barbosa, Chico Buarque e Carlos Lyra, até a expressão máxima do sucesso no dueto com Toquinho. É fato inconteste: entre as canções mais belas da nossa história musical, várias têm letras de Vinicius de Moraes. Depois dele, a MPB foi alçada à condição de grande arte.

Em tempo: no próximo Carnaval, a escola de samba carioca Império Serrano vai homenagear o Poetinha, cuja luz não cessa de nos convidar a viver um grande amor que seja infinito enquanto dure.

Projeto Luz do Verbo – sétima edição
Tema: A bênção, Vinicius
Dia: 18 de novembro, quinta-feira, 20h30min
Do Arco da Velha Livraria e Café (Rua Os 18 do Forte, 1.690, Caxias do Sul, fone 3028.1744)
Entrada franca

Mundo chato


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 12/11/2010

O mundo já foi chato. Na antiguidade, muita gente acreditava que a terra era um disco boiando num imenso oceano ou no éter divino. Um mundo pequeno, demarcado por um fatal precipício para além das fronteiras conhecidas. Mesmo muito depois, entre os intrépidos navegadores que descobriram américas e brasis, talvez houvesse alguns, mais supersticiosos, que temessem acordar na queda sem fim do vazio do mundo. Idéias estreitas, mundo chato. E não é que o mundo segue chato?

A chatice só mudou de sentido. A despeito de todas as maravilhas do conhecimento contemporâneo, de a ciência desanuviar cada vez mais as brumas da ignorância e das crenças de fundo religioso, os mortais cismaram de ressignificar a noção do mundo chato. Ainda que saibamos – nós todos, mortais – de galáxias e de universos em expansão, ainda que convivamos com as comunicações ligando tudo e quebrando limites, estamos reforçando as defesas de nossos territórios. Não há salvação fora de nossos castelos e aldeias. Nosso ego, nossas crenças, nossas paredes: é isso aí.

E a cada estação de movimento, viramos ameaça. Algum líquido na bagagem de mão? Algum objeto pontiagudo ou cortante? Passe no raio-x, no detetor de metais, tire os anéis, tire os sapatos. Você pode ser o fim do mundo, você pode conter dentro de si a bomba. Melhor não sair, não viajar. Fique seguro em seu gueto, em seu mundo. Chatérrimo mundo.

Fronteiras se reafirmam, fronteiras se confundem. Certo e errado? Direita e esquerda? Honesto e corrupto? Não sei, não sei, depende. Não creio, não torço, não faço. Melhor votar no palhaço e pagar o preço da inconseqüente piada. Bandeiras em frangalhos, ideologias vazias, esperanças mortas. Caramba, eu sou um homem de fé, não posso aceitar tanto cinismo, tanto egoísmo. Quando sai o primeiro foguete para Júpiter?

Calma, cara, convém sossegar, tomar um calmante, uma pílula para dormir. É sinal dos tempos, chatos tempos, mas passa, porque tudo passa. Enquanto isso, ponha mais uma tranca na porta, feche as janelas e compre uma lente de aumento para melhor admirar o próprio umbigo. Siga o mundo. Chato mundo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Top five emocional

Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 05/11/2010

Qual o filme que eu mais gosto? Ah, mas são tantos, tantos, cada um ilustrando uma vereda de meu ser múltiplo. Os filmes grudam em mim por motivos tão distintos, que apontar alguns pressupõe definir uma rota íntima. Então, faço aqui um top five emocional: os cinco mais, no quesito nocaute. Filmes que me deixam estraçalhado, caído no chão, mas absolutamente siderado do demasiado humano.


Um. Era uma Vez na América, a obra-prima derradeira de Sergio Leone. Vi pela primeira vez no cinema, lá por 1985. Um baita épico sobre gângsteres, infância pobre, amizade, amor, poder, vingança, culpa, redenção. Por detrás da grandeza narrativa e da violência, há nuances de extrema delicadeza, sob a trilha perfeita de Ennio Morricone. Eu amo amar esse filme.


Dois. Ondas do Destino, de Lars Von Trier. Deus, amor e desejo se confundem na frágil cabeça de uma mulher (Emily Watson, divina) numa vila escocesa de petroleiros. O sórdido e o sublime se alternam na voltagem dramática peculiar de Von Trier. Os temas cristãos da expiação e do sacrifício encontram uma leitura criativa e chocante. Sempre termino aos prantos.


Três. Paisagem na Neblina, de Theo Angelopoulus. Na Grécia, um menino e sua irmã pré-adolescente fogem em busca do pai que nunca conheceram. Qual moderna odisséia, encontram dor e ilusão por estradas nevoentas. As cenas com um grupo de atores mambembes são de uma poesia lancinante. E o final? Nunca sai da gente.


Quatro. A Estrada da Vida, de Federico Fellini. A relação da singela Gelsomina (Giulietta Masina) com o brutamontes Zampanò (Anthony Quinn) em apresentações circenses pelo interior rende momentos iluminados da história do cinema. Personagens arquetípicos, emoções viscerais e mais a trilha de gênio de Nino Rotta: eis o meu Fellini preferido.


Cinco. A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski. Se a vida tira pedaços, se a realidade aniquila, também é do humano renascer, nem que seja preciso fazer soar cada nota da dor de que se tenta fugir. Poucas vezes o cinema foi tão certeiro em desfiar as dobras de nosso coração. Um filme-sinfonia sobre a vida, para sempre.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ouvindo Otto



O nome do novo disco do pernambucano Otto parafraseia Kafka no começo de A Metamorfose: "Certa manhã acordei de sonhos intranquilos". A capa, agressiva e enigmática, esconde um disco delicioso e envolvente. Ando ouvindo bastante o Otto e muito o recomendo. Minha preferida é a regravação, em tom brega respeitoso, da clássica Naquela Mesa. Confiram o som de Crua, que abre o CD.

Um escorpiano



Descer aos infernos, conhecer a noite escura da alma, e de lá voltar renovado, ou curado, é tarefa do signo de Escorpião. O primeiro grande sucesso do escorpiano Milton Nascimento (nascido a 26 de outubro de 1942) diz quase tudo desse signo. Travessia, parceria com Fernando Brant, lançada em 1967, fala de perda e superação, do desejo de morte como descoberta da vida, do desencanto realista de quem faz com o próprio braço o seu viver. Como bom escorpiano, Milton é contido, calado, mas visceral no que cria. Eu adoro ele, sempre adorei. E graças à força escorpiônica, ele enfrentou a morte nos anos 1990 e renasceu ainda com mais brilho. Longa vida ao Bituca!

Estrangeiro em toda parte


"Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma"
Fernando Pessoa

Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 29/10/2010

No Rio Grande do Sul, sempre perguntam-me de onde venho, por causa do sotaque estranho, que se revela baiano. Há pouco, no Rio de Janeiro, quando me apresentei baiano, alguém logo replicou: “e essa cara do sul, e esse sotaque do sul?” Mas o pior é na Bahia. Na minha terra. É um festival de ironias, e relembro duas delas, para reforçar essa minha percepção de ser estrangeiro em toda parte, como definiu o Pessoa.

Ano passado, em Salvador, meio do ano, fui sozinho à praia, no velho e lindo Porto da Barra, me dissolver nas águas de Iemanjá. Aluguei cadeira e sombreiro, pois fugir do sol, ainda que tímido, também é uma sina, decretada pela minha dermatologista. Um livro, uma cerveja, aquele visual, e era tudo o que eu precisava, quando passa o ambulante e me aborda com um sorridente “diga aí, gaúcho!” Eu rebati, carregando no sotaque: “eu sou baiano, cara!” Ele me olhou desconfiado, e emendou: “então tá trabalhando muito, viu, meu rei”, em alusão ao meu bronze pálido. Que desaforo! Não provar minha baianidade em minha própria terra! Mandei ao inferno o ambulante, quando ele me perguntou se eu conhecia os livros de Jorge Amado, como se eu nunca tivesse pisado na Bahia. Já se viu?

Um ano antes, no verão, eu tinha ido com uma amiga a um ensaio carnavalesco do Ylê Aiyê, cuja sede fica em frente à escola onde cursei o ginásio, no bairro do Curuzu. Eu não pisava ali fazia uns 25 anos, ou mais. Fui tomado pelas recordações, anos 70, quando aquelas ruas, hoje tão estreitas, pareciam largas aos meus olhos de menino. Emocionado com as memórias, só percebi a piriguete quando ela perguntou: “você fala português?” Ah, não, no meio de tanto turista gringo rosado, justo eu pareci a ela o seguramente estrangeiro? Minha amiga rolava de rir. Na real, ninguém ali acreditaria que eu tivesse estudado por anos na escola em frente. Ironia da vida.

É, meu caro Pessoa, alguma razão deve haver para se ser estrangeiro em toda parte. O mundo todo é casa para essas almas sem casa e que já não cabem no velho berço. Tampouco cabem em berço algum. Como mutantes. Estranhos estrangeiros.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Contos astrais: O escorpião


Nivaldo Pereira
Publicado no Pioneiro, 2006

Pouco depois de abrir o velho chalé da família e escancarar as janelas para ventilação, Corina acompanhou da sacada a partida do carro. Paulo ia guiando. Ceres não tinha carteira de habilitação e precisava esperar por Ademar, o namorado, que chegaria em instantes na rodoviária de Canela. Corina estava curiosa em conhecer pessoalmente o rapaz que fisgara o coração da sua melhor amiga. Certamente seria divertido este final de semana serrano, ainda mais com um providencial friozinho em pleno novembro. Se ela gostasse do Ademar, e se ele e o Paulo se dessem bem, quem sabe poderiam ser ele e a Ceres os padrinhos do casamento anunciado para o ano seguinte. Uma rajada de vento frio indicou que a noite chegava. Resolveu pegar lenha no porão, porque lareira acesa seria fundamental nesse astral esperado de amigos em festa.

Abriu a porta do porão e sentiu o bafejo bolorento de lugar fechado sem sol. Quando criança, morria de medo de descer sozinha ali. Mas um dia, já adolescente, discutiu com a mãe e, tomada por uma raiva surda, foi se abrigar exatamente no breu úmido de debaixo da casa. Ficou lá durante horas, inerte, ouvindo o chiar dos camundongos e os passos dos pais lá em cima, preocupados com o amuado desaparecimento da filha. Quanta bobagem! Mas pelo menos enfrentara o medo do porão. Agora o interruptor no topo da escada não obedecia ao seu comando. Lâmpada queimada. Onde haveria outra? Haveria outra? Pensou na lanterna do pai, na cozinha. E foi assim, de lanterna acesa em punho, que Corina avistou a pilha de lenha no meio das tralhas do cubículo. Encheu a cesta de vime com a madeira cortada, cuidando de focar bem a luz da lanterna para não ferir a mão. Foi quando avistou uma sombra se mexer por entre as achas, pequena, mas veloz. Afastou-se a tempo de reconhecer um escorpião avermelhado sumindo para debaixo da pilha de lenha. Ela subiu correndo a escada, fechando a porta com estrondo. No dia seguinte, o Paulo daria um jeito naquele invasor...

Mal chegou na sala e já ouviu a voz do noivo: “Cori, chegamos”. E a Ceres: “Vem conhecer o Adé”. Ainda tremia no peito o susto com o escorpião, e talvez por isso ela jamais esperasse um outro baque em seqüência, quando o coração quis ir à boca. Meu Deus! Era ele! Sim, o mesmo cara! Aqueles olhos pretos, inconfundíveis, mesmo agora, tantos anos depois... Sentiu naquele olhar intenso de outros tempos que ele também a reconhecera. Ela se controlou o mais que pôde e estendeu a mão, dissimulada: muito prazer, a Ceres fala de ti o tempo todo, é Adé pra cá, Adé pra lá, que bom te conhecer, a casa é de vocês. Lá dentro dela, um vulcão de estranheza, uma frieza defensiva. Um segundo, ou nem isso, e já gozando de sua condição de futuro anfitrião, Paulo puxou Ademar pelo braço e o conduziu ao quarto de hóspedes. Toda cúmplice, Ceres se chegou à amiga: “Não te falei que ele é magnético? Notei que ele te deixou sem graça, Cori. Ele adora fazer isso...” E soltou uma risada de menina grande.

Cori farejou que aquela noite seria intensa. Fechou-se no banheiro e a memória refluiu. Ali mesmo, em Canela, casa de uma amiga, festa adolescente, quantos anos tinha?, catorze?, ele tomando Coca sozinho no jardim, do lado do grande balanço. Os olhos. Ele fixa nela, encara, não entrega. Ela gosta. O aceno com o balanço. Original. Ela vai. Eu te balanço. Devagar. Pouquinho mais forte, pra ver de cima? Assim tá bom, tá bom. Mais devagar, por favor. Assim não, vou descer. Chega, por favor. Pare, pare. Chega, a corda vai partir, posso quebrar o pescoço. Vou gritar por socorro. Mas e se os pais vierem correndo, como explicar?, por que aceitara ser empurrada por um desconhecido? Impulso louco de soltar as cordas e cair. Queda fatal. Morrer de vergonha e de raiva e ainda matar de remorso esse infame. De repente, ele a ampara, cessando o balanço com um abraço. O olhar. Calor. Ela o empurra, furiosa. Corre para casa. Dias de terror. Ou seriam dias de fascínio pelo menino louco, sem nome? Entocada em casa. Sai desse quarto, guria. Briga séria com a mãe. O refúgio no porão, apesar do medo. Horas de frio, horas infernais. Sim, onze anos se passaram. Agora ele é o Adé, o tão falado cirurgião namorado da amiga Ceres e que viera de ônibus de Porto Alegre.

Logo mais, fogo aceso, o vinho bateu forte para ela já na segunda taça. Ceres e Adé se beijavam na sacada. Paulo cozinhava. Ela arrumava a mesa. Algazarra no jantar. Tudo muito rápido. Ou seria a embriaguez? Olhares furtivos. Olhos negros que ainda gostam de encarar. Amiga de pileque, palhaçando a mesa com piadas. Noivo de platéia. Ela enlouquecendo: a antiga ferida, restos de pânico, um ódio guardado, e uma fissura descabida por aqueles olhos de comprovada crueldade. O fogo baixou na lareira. Paulo foi buscar mais lenha no porão. Ceres servia vinho. Ademar acariciava o cabelo da namorada, mas num canto de olho... Desgraçado! Como pode fazer isso? Paulo falou algo lá de baixo, mas ela não escutou, de tão tomada pelo clima algo sórdido da mesa de jantar. O noivo voltou com um feixe de lenha nos braços, comentando a luz queimada. Só aí ela lembrou do escorpião. E se o bicho tivesse atacado o Paulo?

O sangue em suas veias alternava correntes quentes e geladas. Nunca sentira algo assim? Ou já sentira? Alegou sono, vinho forte, cabeça rodando, e foi deitar. E ficou no escuro do quarto, olhos arregalados, ouvindo as risadas da Ceres e um ou outro timbre do Paulo. Nem sinal da voz do caladão Ademar... Uma hora depois, quando Paulo veio deitar ao seu lado, ela o agarrou de súbito com um misto de desejo e grosseria, unhas e dentes, feito pantera no cio. Agiu com uma intensidade e uma desenvoltura nunca demonstradas em anos de relacionamento. Ele brincou: “Vou comprar mais desse vinho...” Ela ficou quieta, preocupada. Ainda haveria o sábado e o domingo na mesma casa que o Adé... E havia um escorpião no porão...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Só tem corredor? Oh dor!


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 22/10/2010

Que poltrona, senhor? Qualquer janela. A história se repete nos guichês das rodoviárias: a maioria dos passageiros prefere viajar no assento da janela. Eu não fujo à regra. E experimento a frustração geral quando a atendente informa: só tem corredor. Criei uma teoria para explicar essa opção. Como viajar evoca as aventuras de outros tempos, quem escolhe a poltrona do ônibus é sempre a nossa criança interior, aquele menino ou menina que ainda nos habita. Porque criança de lei não abre mão da janela. Nunca.

É certo que já houve tempos em que os ônibus lotavam quais latas de sardinha. Alí, tadinho de quem sentava no corredor, pois teria uma turba a cair-lhe por cima a cada curva. Em caso de calor, a chave da ventilação era a janela, na jurisdição do outro passageiro, a quem também pertencia o manejo da cortina contra o sol. No quesito visual, o da janela tinha a paisagem lá de fora, sempre em movimento, fazendo a viagem fluir, enquanto ao do corredor cabiam monótonas panças e bundas. Ninguém era besta de preterir o poder e o movimento da janela.

Acontece que mudou tudo. Os ônibus interurbanos, que fazem viagens de fato, já não transportam passageiros em pé (em tese), e as janelas não mais se abrem, por conta da climatização interna. Sendo assim, quem se senta no corredor tem muito mais espaço, para além da guerra de cotovelos pela posse do apoio do braço entre as poltronas. Aliás, esse suporte separador é mais sujeito a invasões e atentados territoriais do que o velho Tratado de Tordesilhas. Às vezes, o janeleiro despreza a paisagem para manter a vigilância do suporte de braço e não deixar o vizinho se espraiar.

Ok, o passageiro da janela sempre terá uma paisagem mais aberta. Mas, e nas viagens noturnas, por que a mania da janela prossegue? E se a gente constatar que quem viaja na janela é mais vulnerável em caso de acidentes? Ora, tudo isso é mero bom senso adulto, que nada vale quando surge a possibilidade da viagem – e de aventura – e a nossa criança interna, teimosa e competitiva, já pula gritando: a janela é minha! E mostramos a língua aos demais.

sábado, 16 de outubro de 2010

Insetos e homens segundo Kafka


O escritor tcheco Franz Kafka é tema da sexta edição do projeto Luz do Verbo, que a Do Arco da Velha Livraria e Café promove na próxima quarta-feira, 20 de outubro, às 20h, em Caxias do Sul. Com a apresentação do poeta Marco de Menezes e do jornalista Nivaldo Pereira, o encontro literário pretende discutir a importância de Kafka e de sua obra-prima, A Metamorfose, na literatura moderna ocidental. O ator Maquiam Silveira faz participação especial, com a leitura de um conto do autor. A entrada é franca.

Nascido em Praga, Kafka (1883-1924) viveu apenas 40 anos, mas legou ao mundo obras fundamentais em sua capacidade de focar temas da modernidade, como a alienação do sujeito num universo impessoal e burocrático, a falta de sentido e o desconforto existencial. Na novela A Metamorfose, a história do caixeiro-viajante que acorda transformado num inseto monstruoso virou uma fábula sobre assuntos relevantes do século XX, entre os quais a desumanização e a solidão.

A naturalidade realista com que Kafka descreve o inusitado, e mesmo o absurdo, tornou-se uma marca sua, influenciando diversos outros artistas em múltiplas áreas. O escritor colombiano Gabriel García Márquez sempre assumiu que a leitura de A Metamorfose foi decisiva em sua literatura vista como realismo fantástico. O adjetivo “kafkiano” passou a denominar qualquer clima de pesadelo e opressão. Irônico e lúcido, Kafka denunciou o mal-estar da civilização atual. Nas palavras dele, ‘um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós”.

Adiantando: em clima bem mais ameno, a última edição do projeto Luz do Verbo, em 17 de novembro, vai homenagear Vinicius de Moraes, o poeta da paixão.

Projeto Luz do Verbo
Tema: Insetos e homens segundo Kafka
Dia 20 de outubro, quarta-feira, 20h
Do Arco da Velha Livraria e Café (Rua Os 18 do Forte, 1.690, fone 3028.1744)
Entrada franca

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Folhas de magia


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 15/10/2010

Um pouco mais de magia na vida. É talvez o que precisamos, nesses tempos de apatia. Taí, gostei: contra apatia, magia! Quem sabe, assim possamos resgatar o encantamento, o entusiasmo pela vida. Não falo de magia como feitiço ou bruxaria, numa esfera religiosa, mas no sentido de disposição para a surpresa. Um pequeno susto bom, um abrir de olhos, um riso discreto, uma parada no passo, qualquer reação nova ante o inédito de quando ousamos mudar de rumo – isso é magia.

Essa miúda alteração de humor, ainda que não passe de sutil tropeço na rotina, pode desalojar velhas estruturas internas, afrouxar a sisudez da alma e do corpo, abrir para o viver mais leve. Pois só na leveza podemos experimentar delicadezas que transformam, feito afago de asa de anjo. Somente quando os olhos se abrem mais, ou mudam de foco, e o coração se expande nalguma súbita alegria, somente aí a magia cumpre seu papel final de derramar em nossas cabeças uma chuva dourada de entusiasmo.

Mas ok, leitor, você pode argumentar que não se pode sair por aí, ruas afora, em busca de pequenas epifanias. O mundo está complicado, perigoso até. Eu concordo, mas replico que há livros, livros à mancheia, tesouros guardados convidando a súbitas paisagens dentro e fora da cabeça. Livro é ponte, passagem para outros mundos. Não é à toa o passaporte ser um documento em forma de livro. Ainda não inventaram nada melhor que o livro para acender idéias e nos fazer ascender aos céus do existir.

Esta crônica, sobre livros e leituras, é um exemplo do que estou a defender. Há vários anos, criei o hábito de sempre escrever sobre esse tema durante a Feira do Livro de Caxias do Sul. Criei uma rotina, mas faço por onde a magia entrar: que cada texto seja diferente dos anteriores, no tom, na abordagem; que seja divertido para mim escrevê-lo, que tudo seja leve e positivo. Ah, e na fé de que meu prazer vai contaminar você, leitor.

Então, amigo, ainda tem Feira do Livro neste final de semana. Compre um passaporte para algum outro mundo. Entregue-se à viagem da leitura. O resultado, em sabedoria e emoção, será pura magia.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A espada e o elixir


Nivaldo Pereira
Texto publicado no Pioneiro, 08/10/2010

Na pedra lisa da gruta, à luz da vela artesanal, a silhueta do velho se agigantava em sombras fantasmagóricas. Frêmitos de medo ondulavam a alma do rapaz. Não medo do velho, o eremita a quem viera pedir ajuda, mas medo da jornada por iniciar. Preste bem atenção, pedia o homem de barbas brancas, porque a atenção é uma das armas na luta primeira contra o monstro guardião do portal. Três cabeças tem a fera, e devem ser cortadas de um só golpe, sob pena de se multiplicarem na razão de uma para três. Sua espada deve estar untada em vontade, disciplina e tempo. Sem isso, continuava a alertar o velho, de pouco vai adiantar adentrar ao reino mágico, pois até as maravilhas e sapiências fenecem sem uma entrega voluntariosa. E o rapaz sorveu cada palavra do mestre.

Fora da gruta, o sol e o calor tépido logo o encheram de coragem. Sacou da cinta a espada, depositou-a sobre uma rocha como num altar. E agora? Como lustrá-la de vontade, disciplina e tempo? Isso o mestre não ensinara, mantendo-se mudo quando o rapaz repetiu a questão. E disso o jovem já sabia, avisado por experientes cavaleiros: o sábio nunca entregava o que carecia de ser descoberto por cada um. Vontade, disciplina e tempo. Ah, houvesse tudo junto em poções de elixir... Pode até ser que exista, mas em que longínquo reino, encerrado em alguma torre guardada por um dragão? Buscar o elixir seria fugir da jornada que o aguardava, ali bem perto.

A noite avançou, o rapaz acomodou-se junto à rocha. Precisava pensar, e foi nesse fluxo que adormeceu. Num sonho, uma donzela de manto azul sussurrou-lhe: pergunte-se por que deseja entrar no reino mágico, e dentro de si vai encontrar o lustro da espada. Ele acordou de pé. Por que entrar no reino? Porque ali, diziam todos, encontra-se sabedoria poder e liberdade, e precisava disso tudo para sagrar-se cavaleiro. Era o que mais queria: ser alguém. Era seu foco de ação imediata. E era já.

Assim, munido da espada da atenção, o jovem decepou as cabeças do monstro que exala dispersão, preguiça e adiamento e que impede a entrada dos fracos ao reino mágico chamado Livro.

sábado, 2 de outubro de 2010

No divã da MPB


Nivaldo Pereira
Publicada no Pioneiro, 04/03/2006

Há pouco mais de um século, desde que Sigmund Freud revolucionou as ciências humanas com o conceito de inconsciente, as artes nunca mais foram as mesmas. Todo criador achou ali um coerente respaldo para falar dos deuses e demônios que habitam o interior do homem. Sonhos, traumas, duplos, projeções, complexos, medos, rejeições, vinganças, tudo, tudo pôde virar arte, porque tudo era humano de fato. A música popular, é claro, não ficou de fora. A partir da década de 1960, com a contracultura divulgando terapias e conceitos psicanalíticos, a MPB deitou de vez no divã e pôs-se a falar abertamente de nossos tabus.

O Divã, por sinal, é o nome de uma composição do Rei Roberto Carlos, lançada em 1972. A narrativa é uma autêntica sessão de análise, com o personagem deitado no famoso sofazinho de consultório e desfiando as lembranças remotas da infância, com a confissão: “Essas recordações me matam, por isso eu venho aqui”. O problema em questão é a permanência desse passado no presente. E surge na canção uma imagem traumática: uma festa, um grito na multidão, o sangue no linho branco, e a “paz de quem carregava em seus braços quem chorava”. O analisando não se sente inteiramente compreendido pelo analista: “Eu venho aqui me deito e falo / Pra você que só escuta, não entende a minha luta / Afinal de que me queixo, são problemas superados”. Mas, mesmo assim, parece confiar no poder da própria palavra como libertação desses ecos do passado, ao concluir: “Eu apenas desabafo confusões da minha mente.”

No ano anterior, o Rei já tinha feito sucesso com Traumas, falando do choque da percepção das mentiras contadas um dia por um pai, que aconselhava o filho a não mentir, mas que teria se esquecido de dizer a verdade. O personagem aqui sofre com as distorções que agora precisa inventar, do mesmo jeito com que o pai no passado o protegia da dura realidade com fantasias. E assume: “Talvez um dia pro meu filho eu também tenha que mentir / Pra enfeitar os caminhos que ele um dia vai seguir.” Nessa mesma canção o Rei fala de um dos efeitos psicológicos dos sonhos e pesadelos, que é revelar velhos problemas adormecidos, e ilustra a atitude comum humana: “Durante o dia a gente tenta com sorrisos disfarçar / Alguma que coisa que na alma conseguimos sufocar”. Poucas vezes o cancioneiro popular tinha descido tão fundo nas camadas subterrâneas da mente humana.

O conhecido Complexo de Édipo, antes camuflado em lacrimosas canções de elegia à rainha do lar, recebeu um tratamento visceral em 1976, quando Gilberto Gil declarou, na pungente Pai e Mãe: “A mulher que amei, que amo, que amarei / Será sempre a mulher como é minha mãe”. Na mesma época, o conterrâneo baiano Caetano Veloso foi na mesma direção, com direito a outras projeções, em Minha Mulher: “Quem vê assim pensa que você é muito minha filha / Mas na verdade você é bem mais minha mãe.” Mulher, mãe e filha na mesma figura, e sem culpa: viva Freud! Aliás, Caetano não demoraria a comprar mais uma de suas brigas com a mídia, quando foi criticado por aparecer na capa do álbum Muito (1978) com a própria mãe, Dona Canô. O irmão da Bethânia atacou o psicológico dos críticos: “Têm vergonha desse negócio de gostar de mãe”.

Do lado feminino dessa questão, a intensa Ângela Ro Ro, em seu disco de estréia, de 1979, já aparecia com uma canção chamada Minha Mãezinha, em que botava em pratos fundos e limpos a rivalidade das meninas com as mães e o corte do cordão umbilical. Começa assim: “Sua voz, tão difícil de calar, não me diz mais nada / Já não carrega mais o doce mel da abelha-rainha / Me deixa em paz minha mãezinha.” O tema é chumbo grosso e pauta constante dos divãs, entre culpas e lágrimas, porque raras moças têm a permissão cultural de encararem a mãe e atacar, como na canção: “Você, antes de mãe, é uma mulher.” Talvez só mesmo Ro Ro, com sua coragem de assumir coisas como: “Essa tristeza que o amor me deu / É a coisa mais bonita dentro do meu eu.” No geral, pinta bloqueio, e a gente fica como Roberta Miranda: “No quarto escuro do meu ego sem resposta.”

Seria hora de falar de Chico Buarque, porque esse homem sabe como ninguém falar das complexidades ocultas humanas. O que dizer, por exemplo, do amor e ódio fundidos em Atrás da Porta? Mas isso fica para uma outra sessão, meu paciente leitor, porque seu tempo acabou e o espaço aqui também. Se a tristeza bater nesse dias, e o divã estiver ocupado, pegue seu disco favorito e deixe as emoções fluírem em catárticas notas musicais. E até a próxima sessão.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ouvir e ler estrelas


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 01/10/2010

Nesta sexta-feira, logo depois de o Sol libriano descer no poente, em conjunção com Saturno, e o audacioso Áries surgir no horizonte leste, nascerá oficialmente mais uma Feira do Livro em Caxias do Sul. A Lua, no minguante, estará em Câncer, na parte mais funda do céu. Isso indica um evento sóbrio e eficiente, focado no fundamental. Como eu vivo aprendendo, com Bilac e outros poetas, a ouvir estrelas, tentarei traduzir toques do mapa astral da Feira em sugestões de leituras.

Sol conjunto com Saturno aponta direto para os clássicos, aqueles livros que, de tão bons, jamais envelhecem. Como relacionamentos e justiça são temas librianos, aposte nos desatinos amorosos de Madame Bovary, de Flaubert, e no Crime e Castigo, de Dostoiévski. Na poesia, o velho e bom soneto sempre cai bem, seja de Camões ou Vinicius.

A Lua canceriana reforça o tom passadista da Feira, e acrescenta intimismo, evocando textos sobre história e fundas emoções. Quem ainda não o fez, eis a melhor hora para viajar ao passado gaúcho com Erico Verissimo em O Continente ou deixar-se deslindar na alma por Clarice Lispector em Laços de Família. E as biografias estão em alta.

Regente do ascendente Áries, Marte está conjunto com Vênus, em Escorpião. Uau!, isso é pura paixão, em intensidade e instinto. O que pode ser melhor que As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, e Dom Casmurro, do Machado? Ok, a garotada pode preferir a saga vampiresca crepuscular e genéricos, e estará no mesmo clima de paixões infernais.

Júpiter e Urano, conjuntos em Peixes, opõem-se a Mercúrio, em Virgem. Penso em livros de cunho científico ou filosófico, sem precisar ser de auto-ajuda, e relatos de viagens. A oferta é vasta no gênero. Ah, A Poética, de Aristóteles, sempre é iluminador e útil para quem cria.

No tom econômico de Saturno, não deixe de garimpar os balaios de ofertas e de livros usados. Sábio é investir no saber, o bem que nunca acaba, diria o velho mestre Saturno, segurando a lanterna da inteligência. E ler é deixar essa luz revelar universos dentro e fora de nós.

sábado, 25 de setembro de 2010

Um libriano

No clima de primavera e signo de Libra, quero homenagear um típico libriano da nossa cultura. Vinicius de Moraes, nascido a 19 de outubro de 1913, encarnou à perfeição o arquétipo desse signo da busca do outro e dos ideais de conciliação e parceria. Foi diplomata (profissão libriana), poeta, cantor e, principalmente, um amador amante. "É impossível ser feliz sozinho" é frase dele - e frase de Libra. O boêmio Poetinha casou-se nove vezes. O amor e a cara-metade são buscas, eternas, que dão sentido à vida. O vídeo abaixo é a primeira parte de um especial com e sobre ele, exibido pela TV Cultura. Dedique 10 minutos para matar a saudade desse poeta querido morto há 30 anos. As outras partes do especial estão no Youtube. Vale ver tudo.

Contos astrais: A balança


Nivaldo Pereira
Publicado no Pioneiro, 14/10/2006

Da porta da sala, ela virou a cabeça de um lado para outro, conferindo a arrumação do ambiente por diferentes ângulos. Flores, ok; almofadas, idem; tudo certo também na ondulação da manta do sofá para dar um premeditado ar de despojamento. As velas, prontas para serem acesas. O que estaria faltando? O incenso! Tinha que ter um incensinho queimando bem na hora em que ele tocasse a campainha. Já tinham falado nisso, e ele adorava aromas orientais. Lavanda ou flor de laranjeira? Lavanda é mais suave; flor de laranjeira poderia trazer um astral mais exótico, algo cigano... Não, nada muito forte: senão ele poderia pensar nela como uma atirada, como se quisesse seduzi-lo na primeira visita. Vá de lavanda! A luz cada vez mais tardia do poente varava a cortina de tule branco. Ela amava o crepúsculo. Pôs a tocar outra vez o disco de Adriana Calcanhotto. Pena que ainda faltasse meia hora para ele chegar. Quem sabe depois dessa noite nunca mais ela sofresse a dor de não poder compartilhar um pôr-do-sol...

Uma réstia de sol cruzou estranhamente, àquela hora, o quarto dele. Olhou pela janela, procurando uma explicação. Lá estava. Alguém abrira uma vidraça em ângulo no prédio em frente, projetando daquele lado a luz oposta do poente. Ele ainda estava de toalha atada à cintura, depois do banho demorado, olhando em dúvida as duas mudas de roupa estendidas sobre a cama. Jeans ou aquela calça mais sóbria? Manga comprida ou uma camiseta com os óculos estilizados de John Lennon? Pensou em ligar para algum amigo, pedindo uma dica, mas achou isso uma frescura tamanha. Vestiu e desvestiu cada peça, até optar por outras: uma calça velha, de brim verde, e uma camiseta com a estampa do rosto de uma Brigitte Bardot anos 60 fazendo beicinho. E se ela pensasse nisso como um convite a um beijo? Seria bom, muito bom... Rindo feliz com essa possibilidade, borrifou discretamente o perfume no pescoço e examinou no espelho os dentes. Estava pronto.

Ela acendeu as velas tão logo o sol desceu no horizonte. Ajeitou mais uma vez as flores no jarro. Seria bom pôr na mesinha de centro uns livros diferentes. Quais? Poesia, sempre! E poesia tem que ser do Vinicius. Num átimo trouxe da estante uma antologia de sonetos em capa rosada. De tudo a esse amor ela seria atenta, por isso o esmero, por isso o cuidado. Ele haveria de levar dali a imagem de uma mulher refinada, mas simples. Juntou ao livro uma revista de decoração e um álbum com fotografias de casas do interior brasileiro. Pensando melhor, escondeu na gaveta a revista, porque ele poderia supor que tudo ali tinha sido obra de ensaios copiados, e não a criação legítima de uma alma sensível. Acendeu uma luminária no chão. Sim, o ambiente exalava um conforto convidativo, bem como ela queria. Na cozinha, já tinha conferido tudo muitas vezes: taças, o vinho branco na geladeira, os petiscos. De prontidão, os ingredientes para o jantar, mais tarde, ao sabor de conversas deliciosas ao pé do fogão. Dez minutos para a hora marcada!

Já na rua, ele olhou o relógio no painel do carro. Dava tempo de comprar alguma coisa para levar, mesmo que ela tivesse deixado claro que ele não se importasse com isso. Flores? Romântico, mas muito clichê... Ah! Ela haveria de gostar do queijo caseiro da dona Edite. Estava perto. Estacionou e entrou no armazém antigo já pronto para fechar. A dona o reconheceu e, como se já soubesse o que ele queria, e sabia mesmo, foi logo divulgando o sabor do queijo que chegara naquele mesmo dia. Meio quilo? Ela pôs a bola num dos pratos da velha balança, e o peso no outro. O queijo estava bem mais pesado, mas dona Edite o retirou assim mesmo. Ele reclamou. Não era justo. Ela estaria no prejuízo. Ele queria pagar o valor certo. Mas a gorducha senhora o olhou com carinho e autoridade e sentenciou: “Meu jovem, você precisa aprender a receber. Você é um bom cliente. Deixe eu ser boa para você também. É um direito meu.” Ele sorriu, desconcertado. Pagou e saiu, agradecido.

Ela olhava o relógio a cada segundo. Começou a se preocupar. E se ele achasse todo o cenário da casa muito artificial, como que montado para agradá-lo? E se não ficasse à vontade? E se nem viesse? O telefone tocou. Ela gelou. Certamente era ele, dando uma desculpa qualquer. Sim, era ele. Ela gelou ainda mais. Mas ele estava lá embaixo e apenas esquecera o número do apartamento. Ela quase chorou de alegria. Correu a acender o incenso, não sem antes trocá-lo de impulso por um de rosas vermelhas. Olhou-se no espelho, sacudiu os cabelos, ajeitou a alça do sutiã sob a bata indiana branca e bordada. O coração aos pulos. A campainha. A porta aberta. Dois beijinhos nas faces. Olhares.

Que cheiro ótimo, ele disse. Não vivo sem incenso, ela disse. Ele olhando as coisas da sala, ela explicando tudo. Aqui e ali um roçar de cotovelos, de dedos. Frêmitos nos corações Ele encantado com a delicadeza de uma pequena balança prateada na estante. E ela: “Presente da minha formatura em Direito”. Ele olhando a vista da janela, à luz do crepúsculo ainda resistente. Ela falou da beleza especial daquele poente. Algo inebriado, ele contou a ela a surpresa de ter visto o mesmo pôr-do-sol, mas indiretamente, pelo reflexo na vidraça de um vizinho. Ela riu, e disse: “O segundo sol!”. E os dois acharam que algo forte estava acontecendo. E os dois se sentiram um. Arrebatados, nem perceberam a dança da chama de uma vela refletida na balança da estante. Na mão dele, esquecida, a bola do queijo, pronta a ser repartida.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Primavera nos dentes


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 24/09/2010

Outra crônica de primavera, Nivaldo? O amigo não está ficando repetitivo? Ora, outra crônica de primavera, sim, porque primavera só acontece uma vez por ano e porque nunca é demais sair do olhar miúdo do relógio de pulso para observar e sentir um outro relógio, o do cosmo. É a Vida, assim, em V maiúsculo, que grita lá fora. Por isso, deixe o cronista se repetir e alertar que um novo ciclo se instaura na natureza. Besta é quem não vê nem aproveita isso. Que esteja antenado o leitor: hoje, sexta-feira, é o segundo dia da primavera de 2010.

Mas há tantas coisas sobre as quais seria bom chamar a atenção do leitor... A sociedade, a cidade, as eleições, o futuro, tudo isso não tem pano de sobra para tecer mangas mais úteis na crônica? Ah, mas essa pretensão de utilidade é uma bobagem. Leitor não lê crônicas em busca de utilidade. Aqui ele quer uma pausa, um descanso, uma viagem, um delírio, porque ninguém agüenta o tranco da realidade sem um refresco. Então, vamos ao refresco, cambada: nessa primavera, prometa-se uma festa sem motivo, somente para celebrar a Vida, essa com V maiúsculo.

Ok, mas por ter um espaço de comunicação ao público, o cronista não deveria se engajar em atitudes mais urgentes à causa humana? E a responsabilidade social? Pois que outro vista essa carapuça de responsabilidade social! Não é o ato de escrever e comunicar que me torna apto a dar conselhos, denunciar erros e omissões e brigar pelo leitor. Além do mais, tenho colegas ótimos nessa labuta. Deixem-me no direito de propor um coro cujas palavras de ordem repitam o estribilho do Tim Maia: é primaveeeeraaa, te amoo...

Essa atitude alienada não vai te render muitos leitores. Ser mais pontual e menos viajandão não te daria mais ibope? Ah, não, foi essa loucura de ibope que arrasou com a televisão. Tudo agora é número, índice, ganho, grana. E se é para ter números, pergunto de cá: quantos passarinhos você viu hoje? Quantas cores novas há nas árvores de sua rua? Quantas vezes sentiu o ar fresco da estação alargando os pulmões? Hoje é primavera. Sorria. Celebre. Hoje. Agora. E fim de papo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

No altar da MPB


Rita Ribeiro saúda orixás e entidades no show Tecnomacumba

Nivaldo Pereira
Crônica publicada em 29/04/2006

Talvez a música seja a forma de arte mais presente na vida humana, porque podemos criar sonoridades melódicas em qualquer situação, seja um simples batucar de dedos ou um assovio na rua. Música é transporte para outras dimensões. Pode espantar males ou atrair melancolia, pode conduzir ao céu da nossa doce saudade ou ao inferno das nossas piores lembranças. Daí que a música vira passaporte oficial para o transcendente. Deve ser raro um ritual religioso sem música, venha ela de um címbalo tibetano, de um tambor africano ou de um cântico na missa. Certamente os deuses gostam de sons e ritmos. Por isso, é comum a música popular sair do profano para tocar a esfera do sagrado, louvando a Deus ou falando de aspectos do lado transcendente da vida. Em nossa rica MPB, não foram poucas as vezes em que o palco virou extensão do altar.


Como hierarquias e tradições fazem parte do aspecto religioso humano, vou começar das alturas olimpianas, falando do Rei Roberto Carlos. Em 1970, ele lançou-se como menestrel absoluto do divino com a evocativa Jesus Cristo, bebendo na fonte melódica do negro “soul” das igrejas protestantes norte-americanas. Aquele coro, aquele refrão e aquelas imagens de nuvens brancas e multidões caíram sobre o Brasil como um maná do céu. A canção passou rapidinho das paradas de sucesso para o repertório das missas católicas. E o Rei nunca mais parou de dizer “obrigado, Senhor”, de falar do tamanho da sua fé e de pedir a mão a Nossa Senhora. No maior país católico do mundo, não cabe mesmo a um rei desprezar as sagradas tradições cristãs.

Foi por sua devoção inabalável que Roberto Carlos descartou a canção Se Eu Quiser Falar com Deus, que Gilberto Gil tinha composto especialmente para ele. Essa história de ter que “virar um cão”, “comer o pão que o diabo amassou” e “caminhar decidido numa estrada que ao findar vai dar em nada”, definitivamente, não cabem na crença monolítica do Rei. São conceitos de influência oriental, coisas de um relativista Gilberto Gil, que já faz canções falando de procissões alienantes, orixás, I-Ching e retiros espirituais nos quais teria que decifrar ambos os lados de sua equação metafísica. Gil talvez seja dono da mais sofisticada visão religiosa da MPB. Com a alma cheirando a talco, junta num mesmo palco o Deus Sol e a Deusa Música. E ainda acredita que arte e ciência são ambas filhas de um “Deus fugaz que faz num momento e no mesmo momento desfaz”. A igreja do Rei fica bem longe desse terreiro quântico...

Mas, em se tratando da expressão musical de um país miscigenado, onde o catolicismo oficial convive com outras crenças de origem diversa, a MPB também abre seu altar para um ritual ecumênico. No famoso disco do movimento tropicalista, de 1968, Bat Macumba emendava com o Hino do Senhor do Bonfim. Vinicius de Moraes e Baden Powell já tinham lançado uma série de sambas-afros, tirando os orixás africanos dos terreiros clandestinos e trazendo-os para as ruas e palcos. E saravá virou bordão musical. Ampliaram o que Dorival Caymmi tinha feito com o sincretismo baiano, ao render elegias tanto para Iemanjá quanto para o Senhor dos Navegantes. Pois os tropicalistas comeram tudo isso num ritual antropofágico e abriram caminho até para um Raul Seixas cantar depois seu Rock do Diabo.

Enquanto isso, na onda do musical hippie internacional Jesus Cristo Superstar, o cabeludo Antônio Marcos vivia um roqueiro em crise existencial na balada Oração de um Jovem Triste. Numa igreja, diante de uma imagem de Cristo, ele tem uma iluminação mística sem alucinógenos: “Vestido em ouro te imaginei / E tão humilde eu te encontrei / Cabelos longos iguais aos meus / Tu és o Cristo, filho de Deus”. O povo adorou. E o cantor voltou com o hino O Homem de Nazareth, em 1973. E as igrejas adotaram a canção também.

O altar da MPB é mesmo ecumênico. Cabem nele a modinha popular Cálix Bento, resgatada por Milton Nascimento, e a roda da Pomba-Gira, na Moça Bonita de Ângela Maria; cabem o canto caipira da Romaria de Renato Teixeira a Nossa Senhora Aparecida e o ponto da Mamãe Oxum com Zeca Baleiro; cabem a Ave Maria do Morro e a Ave Maria da Rua. Cabem até novas indagações sobre a figura de Deus, como na Invocação de Chico César: “Serás Deus ou Deusa? Que sexo terás?” E termino essa louvação à liberdade absoluta de crença e de canto vestindo as roupas e as armas do guerreiro santo e rezando o refrão suingado: “Salve, Jorge! Salve, Jorge! Salve, Jorge!”

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quatro elementos e um funeral


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 17/09/2010

O sol batia na estante de livros. Gostou daquilo: um pouco de calor evita mofos e manchas nas páginas. Também era como se a luz solar estivesse a iluminar seu caudal de informações, qual um fogo a lhe clarear os recônditos do cérebro. Cada título nas lombadas, uma história, um tratado, uma viagem. E seu mundo quase ali, na estante, organizado em visões de outros. Mas a luz baixou, sol ocultado por nuvens, mudança no ar. Outras nuvens, escuras, chegavam, ao sabor de um vento forte.

Somente uma fresta na janela, e por ela o vento foi tecendo a sonoplastia de sua força. Viração de tempestade. Vento odeia obstáculos, enfrenta-os, silva, uiva, urra. Vento quer ser novo, sempre. A vidraça a tremer, um certo medo se instalou, mas veio a calma da lembrança do tudo bem após outros vendavais. Ah, não fosse pelo estrago possível, que bom seria escancarar tudo a esse vento! Deixar-se levar, voar, voar, até o pouso final sobre o inédito que o vento promete. Mas agora era a chuva, de grossas gotas, que já batia na janela.

Não demorou para a vidraça virar cortina aquosa, turvando a visão de fora – e a sala, aquário difuso, peixe encerrado dentro. Lavavam-se céus e mundo no grosso fluxo. No íntimo, uma suave acolhida de si, vestígio de um banho refrescante, feito sensação de sonho bom, de memória feliz, de ternura antiga. Inquietações se dissolviam no fluir universal. Não haveria rancor, medo ou ferida de alma que não pudessem receber o balsâmico jato daquela chuva. Bastava abrir o peito, não resistir, esperar um pouco, entregar-se. Tudo passa, e até a chuva passou.

O sol voltou – ar fresco, janela outra vez aberta. Subiu-lhe o cheiro de terra molhada, húmus da vida, mãe eterna à espera de novas sementes. Quis pisar no chão de pés nus. Pulou a janela. E cavou com os dedos um buraco, no quintal. Ali, depositou sonhos frustrados, desejos velhos, vazios de ânsia. Cobriu tudo de terra, ficou um montinho, qual sepultura. Antes de entrar, olhou a cova. Quem sabe nascesse ali a esperança? Sim: já era tempo de morte virar vida. Faltava bem pouco para chegar a primavera.

Amores e clichês


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 22/06/2007

Quis ter um amor feito os dos romances ingleses. Encontraria ela numa alameda do Hyde Park. Olhares se cruzariam sob os chapéus, o olhar dela lembrando uma raposa da charneca, desconfiado; o dele, uma névoa úmida, olhos de fog. Ele a seguiria, e ela moraria numa casa vitoriana, de amplo jardim, com olmos, choupos e tílias formando uma sebe bem cortada, e um pequeno lago com nenúfares. Apesar do bucolismo do entorno, a casa teria um aspecto sombrio, de janelas cerradas. Mulher misteriosa. Guardaria segredos mortais? Cometeria um crime sem deixar vestígios? Teria no lenhador um amante? Riscos demais. Melhor mudar de história.

Daí quis viver um affair como nos filmes franceses. Ele e ela seriam colegas da Sorbonne. Sairiam flanando, ela cheia de charme, com a boina caindo-lhe de lado. Reclamariam no café habitual: a mesa “deles” estaria ocupada. Aí sentariam irritados perto da vidraça e falariam de tudo. Louvariam as glórias nacionais e lamentariam a falta de gênio das novas gerações. Mundo tedioso, carência de revoluções. Súbito, ela revelaria o desejo de voltar para o ex-namorado, mas que poderiam continuar juntos, amantes da tarde, para que um amor assim, tão raro em frescor, jamais sucumbisse à monotonia dos dias. Ele reagiria com raiva. Discutiriam alto e muito. Huumm... Muita falação, amor ruidoso. A história deve ser outra.

Bom mesmo seria um amor de canção portuguesa. Ele, marinheiro; ela, moçoila das margens do Tejo. O beijo quente da despedida duraria dias, meses, na lembrança da boca, quando o navio singrasse pelos altos mares. Toda noite, da amurada do navio, perto da popa, ele olharia para os lados de Portugal. No porto, vendo as ondas baterem nas pedras do cais, ela lançaria ao grande mar o sal de suas lágrimas. Mas algum dia viria algum infante das terras de Espanha e a consolaria no peito. E ele sequer a encontraria na volta do mar. Rapariga sem devoção! Essa história não serve...

Então, aqui e agora, em casa, ele somente telefonaria para ela: “Cansei de amor inventado. Vem, eu esqueço tudo, vamos começar de novo, como numa sexta de Carnaval.”

sábado, 11 de setembro de 2010

Perséfone vem aí


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 28/08/2009

Acordo com o chilreio animado de um pardal no telhado vizinho, adivinhando primavera. Isso já aconteceu antes, já falei disso. E eis tudo de novo, a repetição de ciclos que dá ordem à vida e nos protege do caos. Se ouvissem esse meu pardalzinho matinal, os antigos gregos diriam: Perséfone está voltando para casa e Deméter mostra sua alegria na natureza. O mito que envolve essas personagens, embora doloroso, é carregado de poesia. Vale a pena recontá-lo, agora que o sol transita em Virgem e foca nossa atenção nas etapas naturais.

Pois bem. Deméter era a deusa da terra cultivada. Regia as plantações e as colheitas, o trigo e a arte do pão. Tinha uma filha única, a mocinha Core, a quem adorava. Mas essa adolescente já havia despertado o desejo do sombrio Hades, ou Plutão, deus do mundo subterrâneo, senhor de maneiras nada gentis. Certo dia, enquanto brincava na campina, Core foi atraída por uma flor, um narciso. Mal tocou na flor, a terra se abriu, dela saindo Hades em sua carruagem negra, raptando Core para o além. Um grito da filha: foi só o que Deméter ouviu. No reino de Hades, este logo garantiu sua união com a jovem, estuprando-a. E Core virou Perséfone, rainha do mundo dos mortos.

Acontece que Deméter ficou inconsolável com o sumiço da filha. Abandonou o Olimpo e vagou pelo mundo, maltrapilha, procurando, procurando, ninguém sabe, ninguém viu. Com tanta dor e tristeza, a terra foi ficando arrasada, nada mais crescia, a fome grassava. Deus dos deuses, Zeus resolveu intervir. Foi procurar Hades, seu irmão, que não quis conversa. Negocia daqui e dali, a vida em perigo com a depressão da mãe-terra, Hades consentiu num acordo. Uma parte do ano, Perséfone ficaria com a mãe, e outra parte, com ele, o agora marido.

Assim, a cada outono, Deméter chora a descida de Perséfone para o mundo dos mortos; a natureza se torna melancólica, até o frio do inverno. Mas, na primavera, é tempo da alegria do reencontro de mãe e filha, e tudo parece sorrir de contentamento. O pardal no telhado vizinho também parece saber por instinto desse tempo e faz festa para Perséfone.

Tanto felice

Prêmios e troféus não devem significar muita coisa para quem busca se realizar no ato de criar. Penso assim: a recompensa deve ser a criação em si, e não os prováveis aplausos pela obra pronta. Como postura, isso traz leveza, prazer e evita ansiedades. Mas não deixo de ficar feliz sempre que um trabalho feito com muita paixão e entrega é reconhecido. Como o filme Se Milagres Desejais, documentário do André Costantin e meu (roteiro e direção em parceria), realizado em 2008, e que ganhou recentemente o prêmio de melhor filme com temática de montanha no XVI Film Festival della Lessinia, na Itália. Minha gratidão ao amigo/irmão André, por ter me convidado a mergulhar juntos nessa investigação da fé dos descendentes de italianos na Serra Gaúcha. O vídeo abaixo traz o primeiro minuto do filme, divulgado pelo festival, com legendas em italiano.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Guerreira Dadá


Nivaldo Pereira
Crônica publicada no Pioneiro, 10/09/2020

Dias atrás, conheci o cineasta cearense Rosemberg Cariry, homenageado do nono Festival Santa Maria Vídeo e Cinema. Sou fã do Cariry há muito, pelo seu resgate profundo e sensível de temas e figuras da cultura nordestina, como o casal cangaceiro Corisco e Dadá e o poeta Patativa do Assaré. O cineasta contou do seu antigo fascínio pela figura de Dadá, em episódios que me deixaram muito emocionado, a pensar na força trágica de certas vidas.

Dadá era o apelido de Sérgia Ribeiro da Silva, menina que, aos 12 anos, no sertão da Bahia, fora raptada e estuprada por Cristino Gomes da Silva Cleto, vulgo Corisco, ou Diabo Louro, destacado cangaceiro do bando de Lampião. Dadá não perdoou a violência de Corisco. Mesmo no bando, rejeitou o quanto pôde o amante de ocasião, e este investiu na conquista, até o asco virar respeito, afeto, virar amor. Aprendeu com Corisco a ler, contar e atirar. Era hábil no manejo da pistola. Entre espinhos e perseguições, os sete filhos do casal foram ficando pelos caminhos e caatingas, na casa dos outros.

Quando Lampião e Maria Bonita foram mortos, em 1938, Corisco e Dadá já não estavam no bando. Mas a polícia, munida de metralhadoras, finalmente encurralou os dois, em 1940. Corisco foi morto. Dadá reagiu a tiros – e Cariry chamou a atenção para o fato de o cangaço nordestino chegar ao fim na luta armada de uma mulher! Ferida na perna, que terminou amputada, Dadá foi levada presa a Salvador. Anistiada depois, casou-se de novo, e partiu para outra luta: juntar os restos do corpo de Corisco, sepultado no sertão, à cabeça cortada do cangaceiro, que ficara exposta num museu de Salvador, ao lado das cabeças de outros membros do bando – macabros troféus da “civilização”. Somente em 1969 ela conseguiu seu intento, e a ossada completa do Diabo Louro ganhou sepultura.

Em 1996, Rosemberg Cariry lançou o filme Corisco e Dadá, com Chico Diaz e Dira Paes. Era a história da falante e simpática velhinha que ele conhecera em Salvador e que morrera dois anos antes, aos 79 anos. Era a história de uma mulher nordestina – uma brasileira guerreira chamada Dadá.